O erro certo

A Tabacaria e vários poemas de Fernando Pessoa

/têm versos demais e muitos precisariam ser reescritos.

Trechos dos Cantares de Ezra Pound são prosaicos

/e a rigor incompreensíveis.

Manuel Bandeira  e Neruda tem alguns poemas, que façam-me o favor!

Os Lusíadas, às vezes, cansam,

quase viram prosa rimada,

tal como ocorre com  partes da Eneida, da Ilíada e da Odisséia.

Alguns quadros  e desenhos de  Picasso

nem parecem feitos por um mestre.

Stravinsky às vezes aglutina sons demais em sua pauta

Mahler, como Brahms, faz  música, às vezes inteligente demais

e um dia, pasme! ouvi  algo de Mozart que não me comoveu.

Até Bach tem composições de pura habilidade.

 

Não é possível acertar o alvo o tempo todo

como sabe qualquer atirador.

 

Por que não queres aceitar

a imperfeição do meu amor?

Do livro “Vestígios”(Ed.Rocco) a ser lançado na Bienal do Rio, maio de 2005

Um dos grandes poetas brasileiros, AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA nasceu em 1937, em Minas Gerais. Durante a ditadura, lançou seu primeiro livro de poesias, "Canto e palavra" (1965), e lecionou na UCLA (Califórnia). Na década de 70, dirigiu o Departamento de Letras e Artes da PUC/RJ. Foi presidente da Biblioteca Nacional de 1990 a 1996. Lecionou também na UFMG, UFRJ, universidades da Alemanha e França. Publicou cerca de 30 títulos, entre ensaio, crônica e poesia. É colunista do Jornal do Brasil. Em 2004, a L&PM lançou sua Poesia Reunida (1965-1999) em dois volumes.