SAÍDAENTRADA 

     o CÓTICO de um NAR ciso

o URO de um OXI gênio

  o CESSO de um AB sinto

    o BÓLICO de um PARA íso

      o GASMO de uma OR questra

               o FÓRICO de um META físico

      o ÁVER de um CAD astro

          a ÓDIA de um PAR oxismo

          o RAPO de um FAR sante

  o BELDE de um RE banho

        o AUSTO de um EX pediente

     o TÁSTICO de um FAN toche

o TÁCULO de uma TEM dência

     o FADO de um EN genho

          o RÂNICO de um TI nhoso

 

          a DADE de um UNI córnio

 

             ISTO

    rápido isolado rasgo

um flash de um seu sorriso

    vem à memória

          chama

       que gelo

                   melhor mesmo fosse incêndio

      queimasse as lembranças todas

                                meu corpo

                                 seu corpo

                           e o corpo do tempo

 

                              que nos separa

 

PÁSSARORATO

    os pássaros da noite são belos

       mesmo que não tenham

penas                             sido vistos

         mesmo que tenham

          cantos monótonos

 

suas carinhas

maduras     selvagens     irônicas

sorriem

                   dentro das luzes

                   que não existem

                                       seus olhos

 

desprezam o macio

gaiolalpiste

o melhor que pudéssemos dar-lhes

porque têm

radares

 

              o mundo com uma cabeça para baixo

                    à noite                          muda

 

              : calor   sangue   presença   carinho

 

                    des      te     mor     cego

 

 

ESFERA

                  tudo é redondo

     o mundo                      o olho

de onde quer que eu parta provado está retornarei

                      ao mesmo

                         ponto

 

dentro do perfeito círculo meu corpo perfeito de homem

     em forma de estrela se exerce totalidade e

                        o ventre que engloba

                está provado

                                         é também

                                                     redondo

                              como um cálculo exato

 

destino tomado

centímetros

 

                           paifilhoespírito

                             o triângulo

                               se con-

                                verte

                             em esfera

 

                              imagem

                            do mesmo

                                ponto

 

 

           o mundo                              o olho

 

 

CICLONE

perdidos

cada dos rostos

que diziam tanto

cada dos moldes

que valiam tanto

cada das paixões

largadas ao vento

que as espalhe

que as disperse

leve

para um onde qualquer

um qualquer destino

como folhas soltas

vadias

apavoradas

vão voando loucas

desvairando

que ninguém as salve

nem a nós

sob este céu cinza chumbo

sob este chumbo do céu

perdidos

feito retalhos

rostos

quase espantalhos

sangrados

pelo vento

deus furioso

bárbaro que não se detém

detalhe real prenúncio

de antes da chuva implacável

                                   que muito

                                    por certo

                                       vem...

 

TODO IMPLÍCITO

não o sentido absoluto

    tampouco o tudo

 

só esta certa presença

    que não pretende

    que não pergunta

       nem responde

 

livre da voz

livre do tempo

mais do que livre

 

                o todo implícito

 

                  no fragmento

 

MEUS OITO ANOS

 

AURORA                  DA  MINHA                   VIDA

           ORA                                                                    IDA

 

OS  ANOS                      TRAZEM                        AIS

 

POEMA SINTÔNICO

minha terra tem heitores

minha terra tem gado de corte

 

tem poema concreto

tem poema sujo

 

tem exílio

tem calvário

minha terra tem palmérios

 

minha terra tem preto no branco

minha terra dá pedras

minha terra dá rosas

no meio do caminho

 

tem quilômetros de sede

tem pés que nascem fugindo

 

minha terra tem miramares

minha terra não tem terra

 

       tem engana-tico no fubá

 

e os cantos que em si gorjeiam

        não gorjeiam como lá

 

]

 

CENA-MUDA

eu que era único

e indivisível

agora criei tentáculos

ávidos

que não controlo

 

roubam vermelhos vivos

que nem sei para que servem

desejam tanto, usurpam

violam cantos sagrados

espalham cinzas

riem

esbofeteiam

 

cinicamente esfarelam

pedaços lícitos de pão

distribuem as fichas

embaralham cartas

trapaceiam noites adentro

alheios ao meu desconforto

trazem ouro profano para casa

abarrotam mesas

 

e eu mudo e multifacetado

olho a insana riqueza

que meus próprios braços acumulam

e tentando escutar meu vão discurso

não consigo

porque as frenéticas mãos que não controlo

                             aplaudem

                          ruidosamente

 

LUCI COLLIN tem trabalhos em forma de prosa e de verso.Graduada nos Cursos Superiores de Piano, Letras e Percussão, é mestre em Letras e doutoranda na USP. Possui sete livros publicados (poesia e contos) e já teve cinco textos dramáticos encenados. Recebeu diversas premiações em concursos de literatura no Brasil e nos EUA, dentre eles a “Editor’s Choice Award” concedido pela The National Library of Poetry (1997) e a Distinguished Membership pela International Society of Poets (2000).
Participa de antologias literárias nacionais e internacionais (EUA e Alemanha). Representante do Brasil no Projeto Literário da EXPO 2000 em Hanover. Atualmente é professora de Literaturas de Língua Inglesa na UFPR.