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Pampa
Tradução de Roberto Schmitt-Prym
Quiere Usted Mate? um espanhol me ofereceu em voz baixa, como para não
perturbar o profundo silêncio do pampa. - As tendas se alongavam a poucos
passos de onde estávamos sentados em círculo em silêncio olhávamos de
repente furtivos as estranhas constelações que douravam o ignoto da
pradaria noturna. - Um mistério grandioso e veemente se fazia fluir
aliviado em fresca veia profunda o sangue de nossas veias: - que
saboreávamos com misteriosa volúpia - como no cálice do silêncio puríssimo
e estrelado.
Quiere Usted Mate? Recebi a cuia e suguei a bebida quente.
Deitado na grama virgem, diante das estranhas constelações eu ia
abandonando tudo aos misteriosos jogos de seus arabescos, deliciosamente
embalado pelos rumores aplacados do acampamento. Os meus pensamentos
flutuavam: minhas memórias pareciam submergir para reaparecerem às vezes
lucidamente transumanizadas na distância, como por um eco profundo e
misterioso, na infinita majestade da natureza. Lentamente gradativamente
eu ascendia à ilusão universal: das profundezas do meu ser e da terra eu
refazia pelo celestial o caminho venturoso dos homens para a felicidade
transversal dos séculos. As idéias brilhavam da mais pura luz estrelar.
Dramas maravilhosos, os mais maravilhosos da alma humana palpitavam e se
correspondiam através das constelações. Uma estrela flutuante, cadente,
magnífica, apontava no horizonte glorioso a decadência de um tempo
histórico. Aliviada a balança do tempo parecia reerguer-se, lentamente,
oscilante: - por um maravilhoso átimo imutavelmente no tempo e no espaço
alternando-se os destinos eternos ...
Um disco lívido espectral despontou no horizonte distante perfumado
irradiando reflexos gelados como aço sobre a pradaria. O crânio que se
levantava lentamente era o estandarte formidável de um exército que
lançava legiões de soldados com lanças em riste, aguçadíssimas, luzentes:
os índios mortos e vivos lançavam-se à reconquista do seu território em
lanço fulminante. A relva, à sua passagem, dobrava-se gemendo ligeira ao
vento. A comoção do silêncio intenso era prodigiosa.
Que coisa fugia sobre a minha cabeça? Fugiam as nuvens e as estrelas,
fugiam: enquanto pelo pampa negro bulício escapava de repente no selvagem
e negro sopro do vento ora mais forte ora mais fraco ora como fragor
férreo: de repente da profunda melancolia do eterno errante pelo pampa
reconquistado também vinha um chamado que fugia lúgubre.
Estava no trem em curso: estirado no vagão, sobre a minha cabeça fugiam as
estrelas e os sopros do deserto num fragor férreo: ao meu encontro corriam
as ondulações como em dorsos de feras emboscadas: na selvagem e negra
correria dos ventos o pampa corria ao meu encontro para me envolver no
mistério: a correria penetrava, penetrava com velocidade de um cataclismo
onde um átomo lutava no turbilhão ensurdecedor, no lúgubre fragor da
corrente irresistível ...
Onde estava? Eu estava em pé: eu estava em pé: sobre o pampa no sopro dos
ventos, em pé sobre o pampa que voava ao meu encontro para envolver-me no
seu mistério! Um novo sol me saudaria ao amanhecer! Eu corria com as
tribos indígenas? Ou era a morte? Ou era a vida? E nunca, me pareceu que
nunca aquele trem deveria ter parado: enquanto o rumor lúgubre das
ferragens repercutia incompreensivelmente o destino. Depois a canseira no
gelo da noite, a calma. Estendido nas placas de ferro, concentrado nas
estranhas constelações fugitivas entre leves véus argentinos: e toda a
minha vida tão símile àquela correria cega fantástica desenfreada tornava
à minha mente em fluxos amargos e veementes.
A lua iluminava agora todo o pampa deserto e igual num silêncio profundo.
Às vezes nuvens brincavam um pouco com a lua, sombras improvisadas que
correm pela pradaria e ainda a claridade imensa e estranha no grande
silêncio.
A luz das estrelas agora impassíveis era mais misteriosa sobre a terra
infinitamente deserta: uma pátria mais vasta o destino nos havia dado: um
calor mais doce, natural, havia no mistério da terra selvagem e boa. Agora
sonolento eu seguia os ecos de uma emoção maravilhosa, ecos de vibrações
sempre mais distantes: até que com os ecos a emoção maravilhosa também se
acabou. E foi então que eu senti, delicado, no meu entorpecimento final, o
homem novo nascer: o homem nascer reconciliado com a natureza
indizivelmente doce e terrível: deliciosamente e orgulhosamente nascerem
sucos vitais da profundeza do ser: fluir da profundeza da terra: o céu
como a terra elevado, misterioso, puro, deserto de sombra, infinito.
Me levantara. Sob as estrelas impassíveis, sobre a terra infinitamente
deserta e misteriosa, da sua tenda o homem livre estendia os braços para o
céu infinito não deturpado pela sombra de Nenhum Deus.

DINO CAMPANA (1885-1932) foi um dos maiores poetas italianos do século
XX. Publicou em 1914 o seu único livro: Cantos órficos. |