Ismael Nery, Auto-retrato, 1925

 

 

 

Confissão

Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
— De mim que me desprezo e me acredito um nada.

1933


Eu

Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas
Eu sou o que não existe entre o que existe.
Eu sou tudo sem ser coisa alguma.
Eu sou o amor entre os esposos,
Eu sou o marido e a mulher,
Eu sou a unidade infinita
Eu sou um deus com princípio
Eu sou poeta!

Eu tenho raiva de ter nascido eu,
Mas eu só gosto de mim e de quem gosta de mim.
O mundo sem mim acabaria inútil.
Eu sou o sucessor do poeta Jesus Cristo
Encarregado dos sentidos do universo.
Eu sou o poeta Ismael Nery
Que às vezes não gosta de si.

Eu sou o profeta anônimo.
Eu sou os olhos dos cegos.
Eu sou o ouvido dos surdos.
Eu sou a língua dos mudos.
Eu sou o profeta desconhecido, cego, surdo e mudo
Quase como todo o mundo.

1933
 

Oração

Meus Deus, para que pusestes tantas almas num só corpo?
Neste corpo neutro que não representa nada do que sou,
Neste corpo que não me permite ser anjo nem demônio,
Neste corpo que gasta todas as minhas forças
Para tentar viver sem rídiculo tudo que sou.
— Já estou cansado de tantas transformações inúteis.
Não tenho sido na vida senão um grande ator sem vocação,
Ator desconhecido, sem palco, sem cenário e sem palmas.
— Não vedes, meu Deus, que assim me torno às vezes
irreconhecível
A minha própria mulher e a meus filhos.
A meus raros amigos e a mim mesmo?
— Ó Deus estranho e misterioso, que só agora compreendo!
Dai-me, como vós tendes, o poder de criar corpos para as
minhas almas
Ou levai-me deste mundo, que já estou exausto.
Eu que fui feito à vossa imagem e semelhança.
Amém!

1933


Poema

As gargalhadas
Os prantos
Os gritos de admiração e de pavor
Os gemidos de gozo e de sofrimento
O múrmurio do mar
O troar dos canhões
E todos os barulhos do universo
— Tudo isto penetra no meu ouvido
Como no ouvido
De uma estátua de pedra de olhos fechados,
Imóvel,
Que presidisse a vida,
Que registrasse o tempo
E que pensasse
— O dia em que visses essa estátua olhando
Poderias afirmar — não existe Deus. —
E terias então o direito de julgar.

1933


Poema para Ela

Acabaram-se os tempos.
Morreram as árvores e os homens,
Destruíram-se as casas,
Submergiram-se as montanhas.
Depois o mar desapareceu.
O mundo transformou-se numa enorme planície
Onde só existe areia e uma tristeza infinita.
Um anjo sobrevoa os destroços da terra,
Olhando a cólera de um Deus ofendido.
E encontrou nossos dois corpos fortemente enlaçados
Que a raiva do Senhor não quis destruir
Para a eterna lembrança do maior amor.

ISMAEL NERY (Belém PA 1900 - Rio de Janeiro RJ 1934)
Cursou a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, entre 1915 e 1920, aproximadamente. Viajou para Paris (França) em 1920, e lá estudou na Academia Julian. De volta ao Brasil, trabalhou como desenhista da Seção de Arquitetura e Topografia da antiga diretoria do Patrimônio Nacional do Ministério da Fazenda, onde conheceu o poeta Murilo Mendes, em 1921. No ano seguinte casou-se com a jornalista e escritora Adalgisa Nery, modelo constante em sua obra. Em 1924 ilustrou o livro Contos e Poemas Bíblicos, de Nelson Catunda. Seus poemas foram publicados postumamente na revista A Ordem, números de fevereiro e abril, por iniciativa de Murilo Mendes. Em 1946 ocorreu a publicação de oito de seus poemas na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, organizada por Manuel Bandeira. Considerado o precursor do Surrealismo no BrasiI, Ismael Nery é um dos expoentes da pintural nacional do século XX. Sua esparsa, porém significativa obra poética vincula-se à segunda geração do Modernismo. O amigo Murilo Mendes escreveu, sobre seus poemas: "o germe da poesia, essencial ao teu ser/Se prolongará através das gerações."