Na cidade aberta

"... a fito de desenvolver mais estudos e apuramentos só de cidade"
(Riobaldo, João Guimarães Rosa)

I

Tempo de espera... aeroporto em terra estrangeira... Tempo do pote de tinta cheio. A cidade abre a noite de páginas escuras. Nenhum vislumbre de mar na pista dos olhos. Nenhuma areia que margeie esta saudade. A melodia afônica do frio governando a pulsação do fuso-horário. Miragem. Sem palavras, as ruas impedidas pelo débito, o íntimo solapado pelos passos da distância, a cidade traficada por turistas; cartão-postal.

II

Ausência de palavras, preguiça do homem; excesso delas, estafa. Os filhos da cidade: não há outro motivo para tê-los senão o de nomeá-los. A medida de certas sílabas perfazendo uma habitação, com o movimento da mão entrelaçando o pensamento. O metabolismo suscetível de quem fala. Quantos bairros as palavras abrem para nós, quantas cosmogonias! Elas, últimos redutos da aventura.

III

Tempo de prumo. As frases alastram pela manhã uma paisagem de títulos. Revoada de senhas... espuma de tiros... Algumas vozes emprestam músculos para que se toque com o corpo o mar. A proximidade impelida pelas braçadas no esquecimento: de escamas, sargaço e tinta, o mergulho de um homem. O presente de transparências. E o sotaque oracular no momento da vazante. A cidade habitada pela praia, consentida.

IV

A cidade se mostra, sempre aos pedaços. Os requintes do arranjo mantêm o encanto, desdobrando-se dos céus ao aiucá; do que eles esquecem, quem poderá lembrar? Freqüentação... convivência no estampido da memória e do esquecimento. Os cidadãos amam esconderijos, como as frases, as esquinas e o tempo. Logogrifos. Por medo da solidão, o mistério jamais abandonou a cidade. Jamais as palavras.

V

Um despacho paira na encruzilhada encorajando alguém: um homem, um povo, uma raça. Na contramão, um outro provoca o seqüestro de qualquer esperança. Ninguém sabe ao certo que alimento arrastará os acontecimentos. Nem como subornar os imperativos do arranjo. A cidade, sem direção, cativa na permanência do desassossego.

VI

Toque de carne, cimento e mar. Cada pessoa tem uma hora marcada com os domínios da cidade, passando pela ponte curvilínea que freme nas fendas necessárias. Esbarro de gente nos prefixos do asfalto. O atropelo das buzinas legislando obrigações. A milícia do barulho provocando detenções. Os arranjos de surpresa da cidade, acatando os acidentes como acasos celebrados.

VII

Vidros de mãos dadas, marquises conjugadas, portas enfileiradas. Grudadas umas nas outras as paredes enganam a solidão. As estátuas dos santos tremem nas salas. O prolixo das coisas rindo-se de nós. Sebastianópolis: um corpo baleado por paisagens. Ao homem perdido no meio da rua resta a praia, exceção primeira na cidade. Habitar pela lição de quem nada, cumprindo da terra o vasto, e mais nada.

VIII

Estilhas atravessam à revelia as ruas, balas perdidas em carne transeunte. Escoriações no homem cometendo o cidadão. Pulsos esbarram em cotovelos. O corpo, entregue ao burburinho dos feirantes, ao grito de assalto, às falanges da torcida em seu canto, não quer descanso. Uma bandeira se desfralda pela coxa, uma culatra se aloja na axila, uma cédula nasce do nariz. No vozeio dos arranjos da cidade, o vôo inesperado da sintaxe e do sentimento.

IX

Os desejos da cidade intrometem-se nos corpos, galeras simultâneas desfazendo pela dança tiranias. Cantos... bailes... charos... arrastões na areia do refúgio. O gatilho das línguas disparadas ao mesmo tempo. Berimbolam as fronteiras desta terra. Membros errantes implantam-se entre si. Pernas de bárbaro em braço cidadão. Carburadores do morro na engrenagem do asfalto. Cabeça de rodas e chassis. O convívio com esbarros provocando, a cada instante, adesões.

X

Um corpo preto passando altivo por entre os carros na velocidade disparada do trânsito. Mulher suada de calcinha e nua no asfalto quente da beira da praia. Sol em pé, a pino, peitos, porta-estandarte do deus do amor... mansão inesperada da pobreza. Ferro temperado, aro, a carne atropelando os carros, palavras pretas e suadas no embalo atravessado desta raia.

XI

Morromares, favelasfaltos, centrobúrbios, pontilhas: a cidade em planos misturados, aberta a quem por dentro a percorre. Pernas atávicas nomadizando grades de interiores sedentários. Esta cidade tem becos e amplidões, buracos e relevos, encostas e planos... tem fronteiras desguarnecidas e o esquecimento da busca e da espera por pernas aventureiras.

ALBERTO PUCHEU nasceu no Rio de Janeiro, em 1966. É escritor e Professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou: Na cidade aberta . Rio de Janeiro: Ed. U.E.R.J, 1993., Escritos da freqüentação . Rio de Janeiro: Ed. Paignion, 1995., A fronteira desguarnecida . Rio de Janeiro: Ed. Sette Letras, 1997., Ecometria do silêncio . Rio de Janeiro: Ed. Sette Letras, 1999., A vida é assim . Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001., Escritos da Indiscernibilidade . Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2003.