ET IN ARCADIA EGO

lancei cada pedaço do cadáver
sobre a grama: seu verde concentrado
pela água da chuva que dilui
o pó, e pelo sol que ali brilhava
metálico através das poucas nuvens
remanescentes, era mineral
como lâminas frágeis de esmeralda
espalhadas sobre a terra macia:
mas eram tão macias como a terra
e a carne tenra, quase sem ruído
caindo, dobrava as que assim ficavam
por baixo, transformando o entorno em ninhos:
onde meus cães, famintos da manhã
atiravam-se às vísceras rasgadas
aos pedaços inúmeros de músculos
aos grumos gordurosos e umas poucas
gotas de sangue, iguais rubi nenhum
mas a gotas de sangue coagulado
pontilhando um tapete de esmeralda:
era primavera, e as primeiras flores
manchavam com suas cores muito fortes
o verde escuro da cerca, onde um pássaro
pousou sem pressa, negro, asas abertas
ignorando, solene, os três carnívoros
debruçados nervosos sobre a presa:
teria sido um touro, um dia, antes
da primeira sangria, que o tombara
exangue de braveza e de bravura:
e terá sido então como um boi manso
em cujo sangue há muito não corria
nenhum apelo antigo de futuro
e cujos pêlos já não se arrepiam
por frêmito nenhum fora o do frio
que foi puxado até o abatedouro
terminar de ser morto, e já cadáver
ser mutilado como fora vivo:
o deus primordial de minos, cápsula
muscular do vigor da natureza
foco de força, fúria e poder puro
feito menos ainda que um bom bife:
eram restos de açougue o que eu servia
mas pelo menos para alimentar
esses restos de lobos, que os cães são
o deus despedaçado ainda servia:
para mantê-los vivos e adiar
destruição igual a desse ex-deus
posto a seus pés: por isso de repente
pararam de comer quando o urubu
descera, lento, sobre a cerca viva
o corpo inerte, as asas se fechando
os pés bem juntos, mudo, inatacável
como um anjo pequeno e negro, um totem:
porque não eram restos que visava
mas a vida que ali ainda havia
e manteria vivos os meus cães
até que reduzidos a outros restos:
restos em que, por ter de devorá-los
desde sempre se haviam transformado

Este poema integra o volume Sobre Sísifo, a sair pela Ateliê Editorial.

LUIS DOLHNIKOFF, poeta paulistano, publicou seu primeiro livro, Impreciso Emigrar, em 79 (SP, Massao Ohno, em colaboração com Paulo Rosenbaum). Em 86, com prefácio de Paulo Leminski, vieram a lume os poemas de Pãnico, pela Timbre-Expressão. Impressões digitais (poesia coligida) foi editado em 90 pela Olavobras, editora que fundou com Marcelo Tápia e por onde foram lançados também seu livro de contos Os homens de ferro (90) e o poemário Microcosmo (91).