Cinco poemas

Deitada a teu lado, eu já não estava mais ali. Meu corpo ganhara leveza e transparência próprias das memórias e nem peso mais eu fazia sobre o colchão. Tu me olhavas através, não como quem vê, mas como quem recorda. Nada mais dali valia ou tinha cor. A distância já nos tinha imposto a impressão póstuma dos sentidos. Sempre foste assim, apegado às antecedências. Nunca entenderei se o que me levava para longe antes mesmo de partir era tua necessidade de te apoderar do porvir ou uma intolerância absoluta aos transbordamentos. Também sinto assim, uma premente vontade de passar pelo sofrimento num trem que não pára no final da linha, mas ao contrário de ti, não escolhi ser trilho. Tentava gritar na mudez do corpo um suplicar de coragem. Tentava pedir-te ação na imobilidade rútila dos olhos. Teu rosto largo, tua pele triste, tuas minúsculas pupilas me contavam dos temores fossilizantes enquanto eu te abria meu peito em pétala, fazia-me acasalamento e núpcias, estendia a alma em braços e pedia para me impedires de partir. E tu nada disseste, apesar das tuas mãos confessarem tua fome das minhas carnes, ao pesar de uns olhos de tristeza infinita, a pesar teu corpo solidez sobre o meu frêmito e ânsia.


Para quê inaugurar technicolor, se depois irias me deixar preto e branco? As crueldades miúdas estão sob minhas unhas, tingindo a pele de roxo. Para quê dar alturas se depois me negarias asas, para quê amor perfeito se chuva não mais? As crueldades graúdas estão enfiadas num cordão e as levo penduradas no pescoço. Para quê cachos de uva se me deixarias à míngua, para quê ensinar teu nome se me arrancarias a língua? As crueldades que não consigo carregar dormem ao meu lado e ocupam teu lugar.


Há em ti algo que me faz despir a epiderme, que me desveste de carapaças e escaramuças, que expõe o meu de dentro, que me vira no avesso de nervos, sangue e vulnerabilidade. À tua presença eu desabrocho em verdades e clarezas, em entranha e desvelo, em confissões e franquezas. A ti meu flanco exposto, minha carne viva, meu seio nu, a ti as mentiras em obviedade cretina, em flagrante insipiência, em rubor infantil. Aos teus olhos sou a presa imaculadamente indefesa na atroz ignorância do seu inderrogável destino e, ainda assim, eu te estendo os braços.


Foste te fazendo em mim nos entremeios da pele, nas fendas, nas frestas, nos orifícios e por tuas mãos e sob teu peso, descobri meu ofício de florescências. Tua boca pelos meus sulcos e sumos, tua língua de ânsia e carícia, tua força de amarras e asas e eu me encontro fêmea de ardências, deliqüescida entre teus dedos, sôfrega em teus braços, exausta e insana sobre teu corpo, tuas unhas tatuadas em minha pele, teu desejo dançando luminoso em meus olhos.


O impossível me permeia como quem borda a vida de delicadezas e silêncios e em seu desenho de vãos, os contornos de ausência revelam teu rosto. Triste urdidura a minha, de fina renda em seda e frestas, em fios e vazios, em lacuna e arabesco. Uma rede de se enredar com espaços de se evadir, um laço de abraçar com buracos para fugir.

PATRICIA ANTONIETE é escritora e advogada em Porto Alegre.