Poemas inéditos

Essas pobres mulheres que lêem revistinhas
de amenidades, com horóscopos, palavras
cruzadas, receitas e cartas sentimentais,
que já não são meninas e suportam
o declínio, que ensaiam
sedução e se enovelam nas tramas domésticas,
que são mães, avós, sogras
e contam histórias tristes de seu passado,
e crescem no sofrer,
            eu as recebo, afago, e deixo
            que partam como os beduínos das caravanas
             carregando nos lentos camelos
             as tâmaras, as adagas, as mortalhas.
             Fica comigo uma réstea de luz:
             seus vagos desejos adiados.
 
 
Saquarema, 26/05/90
 
 
Não me cortem as asas que não quero voar.
Nium mi tema se armato mi vede
é contra mim, apenas, esta ária
rodeada de surdos e impotentes.
Quem amassou meus lençóis pouco sabe de amor.
Os gemidos são outra forma de chorar,
sem complacência.
 
Não sei onde está a cidade onde eu queria ficar,
só sei que todas as viagens interrompem o mapa.
 
 
Rio, 21/1/90
 
 
O sonho de Castorina
 
No sonho de Castorina
tem um lago adormecido
onde no fundo passeia
uma anêmona de vidro.
 
Tem uma moça que acena
de uma varanda de olvido,
Tem um roseiral aberto
num jardim adormecido.
 
No sonho de Castorina
tem caminhos orvalhados
por onde passam pastores
com seus rebanhos dourados,
 
por onde passam amores
há muito tempo sonhados,
juras, suspiros, desejos,
no tempo cristalizados.
 
No sonho de Castorina
tem paisagens transparentes,
pássaros de ar, arco-iris
de cristais luminescentes.
 
Tem uma porta fechada
e uma estrada sem saída,
tem uma rede de afeto
eternamente tecida.
 
Nesta rede deitaremos
a sonhar com Castorina
pois de prata são seus remos
nesta quermesse divina.
 
 
Saquarema, 19/05/89
 
 
Os ratos
 
Como almas deserdadas deslizam
pela sombra.
                       Veludo irrespirado,
náusea, gota
de treva acelerada,
forjam ninhos de paina.
 
Deixam no ar o cheiro do desconforto,
roem
       detidamente os breves
entraves do domínio.
São logo tantos, tão iguais, multiplicados.
Cavalos minúsculos partindo do borralho,
dos fornos, dos vãos, das frestas, dos espaços
lavados pela música ou pelo ardor
do dia. Logo dormidos,
parindo o exílio
esperam o silêncio.

O pleno
silêncio da noite onde reinam,
senhores da vigília, do tempo
suspenso entre estrelas limiares.
 
 1989
 
 
Como um condenado
arrasto
grilhões que  não são meus;
como o irmão de um condenado,
companheiro de cela,
acusador ou assassino
de um condenado,
assumo todas as culpas.
 
Peço que baixem a voz,
que caminhem com cuidado
num jardim de gemidos.
Peço que se desculpem
e agradeçam
por mim e por todos os que estiveram aqui
arando este vale de lágrimas.
 
Sofro por todos, e me canso, e transpiro
como o cavalo subnutrido que puxa
uma carroça de feno,
uma carroça de fresco e saboroso feno
que não lhe é dado.
 
Não deixo assim o sofrimento à margem,
ou à revelia,
tomo-o contra o peito
e me ilumino.
 
6/11/88
 

WALMIR AYALA nasceu em Porto Alegre (1933) e faleceu no Rio de Janeiro (1991). Poeta, romancista, contista, dramaturgo, memorialista, crítico de artes plásticas, ensaísta e tradutor, dedicou-se também, intensamente, ao jornalismo. Publicou mais de uma centena de livros e conquistou vários prêmios nacionais de poesia, ficção e literatura infantil. Tem poemas, ensaios e livros traduzidos para o espanhol, o inglês, o francês, o italiano e o alemão. Entre suas principais obras, sucessivamente reeditadas, destacam-se À beira do corpo (1964), A pomba da paz (1974), Era uma vez uma menina (1982) e O forasteiro (1986).