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O Anjo Cego
Os sonhos de um míssil
são inocentes. Sofre
porque não tem língua,
então não pode se explicar.
Um míssil não tem
memória, então não pode
adivinhar o seu futuro.
Voar – só isto que ele entende.
Por pouco tempo, faz companhia
com os pássaros migratórios
e os papagaios de papel puxando
suas correias. Um míssil
é o viajante por quem o exílio
é sua única viagem,
o cigano que jamais poderá
voltar pra casa.
Vai seguindo a curva da terra
como amante atento.
Nunca se atrasa,
mas cumpre seu triste encontro
com destino, cantando
nas nuvens, anjo cego,
anjo da morte.
Os satélites distantes divulgam
suas pobres traduções.
Os papagaios pausam
nas nuvens, e as nuvens
passam. Quem é testemunha
da beleza deste breve vôo
pelos céus? Ninguém vê,
nem as crianças abaixo
que chegam, sempre, bem no finzinho
da história, se espalhando
como pombas.
Hortênsias
Além de mim não,
mas além da minha memória,
minha mãe é uma guria
no sul do Brasil,
e ela não sabe meu nome.
Ela corre da madeireira,
os dois dedos sangrados
e desunidos do seu pai
nas suas mãos pequenas.
Ela jamais chegará
ao outro lado deste momento.
Quando as chuvas de inverno
vêm com um amor opressivo,
e o rio perde toda disciplina,
o povo só pode olhar as águas vindo,
mas ninguém as estava chamando.
As águas correm para as paredes interiores,
fazendo um sistema oculto
de correntes, e as paredes
ficam manchadas para sempre.
De uma cadeira levantada
em cima de tijolos,
minha mãe pode olhar para baixo
as marés visitantes
e escutar seus silêncios largos
passando pela sua vida.
Qualquer coisa que flutua
tenta escapar da casa;
fotos e cartas de amor,
as páginas errantes
de um calendário,
até uma jarra de álcool
em que dormem dois dedos
como peixes inocentes.
A chuva chega ao fim.
Minha mãe é uma noiva
ajoelhando-se no altar.
Ela fecha seus olhos
que são os meus
e faz um pedido
que ninguém vai lembrar,
a menos que os santos lembrem.
Mãe, quantos passos têm
entre o teu corpo
e essa porta atrás de ti?
Tem um número exato
que nunca vai ser escrito.
As hortênsias pesadas
são quietas como sinos quando
ninguém os toca.
De madrugada, minha avó desata
seus alarmes de linhas de pesca
e latas enferrujadas
nas soleiras das janelas.
Assim, à noite, ela
pega ladrões, mas às vezes
é só o vento.
O verão vem,
de onde não sei.
Minha imaginação não entende
o cálculo difícil
dos anos e dos séculos.
Um verão pode durar
para sempre,
e as chuvas nunca virão.
O corpo vivo
é o relógio mais certo.
Na manhã cheia de laranjeiras,
um cachorro louco de amor
esquece o limite da correia,
e um velho chama seu neto,
um menino que eu reconheço
nas minhas fotos.
Ó mãe, aonde foi aquele senhor?
Suas mãos me ensinavam
a perder as coisas,
até as próprias mãos.
Procuro ele naquela cadeira
velha e promíscua.
Procuro o nome dele sem sucesso
nos catálogos telefônicos.
Procuro sua voz nas salas vazias do meu ouvido.
Procuro o cheiro de fumaça em sua roupa no armário,
o cheiro que a luz do verão roubou.
Aonde está a palavra
que ele ainda me deve?
Pergunto a todos os meus parentes,
avó e tios e até primos de segundo grau,
que me olham como essas estrelas
lindas e inúteis.

JOHNNY LORENZ, filho de brasileiros
de São Leopoldo, nasceu em Newark, New Jersey, Estados Unidos, e foi
criado em Miami Beach. Em 2000, recebeu o título de doutor em letras pela
Universidade do Texas em Austin. Atualmente, encontra-se radicado em New
York City, e leciona literatura na universidade estadual de Montclair em
New Jersey. Escreveu vários artigos em revistas e livros como
'Interventions', 'Asian American Literature in the International Context',
e 'Gloria Naylor: Strategy and Technique, Magic and Myth'. Os seus poemas
foram publicados em revistas como 'Terra Incognita', 'Filling Station',
'Borderlands' e 'The Massachusetts Review'. Em 2003, ele recebeu uma bolsa
de estudos pela Fulbright para traduzir para o inglês a poesia do gaúcho
Mário Quintana. Durante o período de seis meses morou em Porto Alegre,
onde deu aulas na UNISINOS e desenvolveu atividades de pesquisa no acervo
do Mário Quintana na PUC-RS.
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