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A prosa do poema
Para qualquer lado que nos viremos, o ouvido pousado em alguma estação de
rádio ou em discursos de entrega de prêmio ou louvações acadêmicas, o olho
posto em outdoors, panfletos que invadem o carro em semáforos ou camisetas
anunciando uma nova crença, em qualquer circunstância, impossível não dar
de cara com um crime de lesa gramática. De tantas maneiras se fala e
escreve errado neste país, que por vezes chegamos a duvidar daquilo que
aprendemos como certo. Se a gramática foi convertida em exemplar
ficcional, a quem importa sua aplicação inquestionável? Enquanto isto, o
elevador da corrupção, que é também o da vida lotericamente fácil, nos
leva de um andar a outro da chamada pirâmide social, com tamanha
desfaçatez, que já nem sabemos onde está a palavra certa, a expressão
exata, o correto tratamento da língua. Como toda retórica é torta, a quem
ensinar primeiro os prazeres da boa língua a um brasileiro: a seu povo
miserável, a sua astuta classe política ou ao intelectual que se nutre de
ambos ao mantê-los onde estão?
[Inédito, 2005]

FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957).
Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Tem se dedicado, em particular, ao
estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à
poesia. Foi editor do jornal Resto do Mundo (1988/89) e da revista
Xilo (1999). Em janeiro de 2001, a convite de Soares Feitosa, criou
o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre poesia
de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de
Poesia.
Com larga trajetória de colaboração à imprensa, tem escrito artigos sobre
música, artes plásticas e literatura, incluídos nas publicações citadas e
também em outras, como Comércio do Porto (Portugal), Letras &
Letras (Portugal), International Graphitti (Costa Rica), El
Artefacto Literario (Suécia), Exégesis (Porto Rico), Crítica
(México), Blanco Móvil (México), Casa del Tiempo (México), e
brasileiras como Rascunho, Alô Música e Poesia Sempre. |