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Título: O UM: Inquérito parcial sobre o caso Ingo Ludder
Autor: Antonio D. Cattani

Dimensões: 16 x 23 cm
Páginas: 160
Gênero: Romance
Ano: 2017

O surgimento de personagens tais como Hitler, Trump ou Ludder depende da existência de indivíduos excepcionais ou de condições previamente encontradas na sociedade? Para alguns, a junção de carisma e competência política explicaria como despontam homens-acontecimento, líderes ou gênios maléficos capazes de arregimentar pessoas ordinárias e incautas. Para outros, a explicação se encontra no caráter moral de parte da sociedade. Para atingir seus objetivos, ela produz de maneira consciente e deliberada o homem-instrumento.
Essa controvérsia teórica se materializa numa situação verídica: a trama da ascensão e queda d’O UM reconstruída pelo Delegado A. A. Passos Linder. Além de lidar com caso tão complexo, Linder é confrontado a um desafio: como redigir o inquérito de forma isenta sem interferir na realidade?

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O Um, de Antonio D. Cattani,
retrata um país terrível (e familiar)


Rogério Christofoletti

em: https://literaturapolicial.com/2018/01/03/o-um-de-antonio-d-cattani-retrata-um-pais-terrivel-e-familiar/

A afirmação está desgastada, mas ainda encontramos sentido nela: numa terra arrasada, qualquer tipo de planta pode crescer. Principalmente as oportunistas ervas daninhas. É num cenário como este que Antonio D. Cattani insere seu mais recente livro, O Um – inquérito parcial sobre o caso Ingo Ludder (Bestiário, 2017), novela criminal que dialoga muito com o contexto atual.

Na história, um líder carismático aproveita a descrença política, o ceticismo nos partidos e a frouxidão moral de parte da sociedade para se projetar como salvador da pátria. Ingo Ludder é magnético e arrebatador, e está cercado de estetas deslumbrados, financiadores espúrios e consultores abjetos. Alicerçado por um conjunto de vídeos enaltecedores, Ludder destila ódio, xenofobia, racismo e discriminação social, despontando como o avesso da política que está aí, estratégia que o catapulta para ser favorito a uma vaga no Senado Federal. Tudo corre bem para o homem que é apontado como O Um da organização Ordem e Verticalidade, mas, de repente, às vésperas da eleição, Ludder desaparece.

Em O Um, Antonio D. Cattani instiga o leitor a percorrer um conjunto esparso de depoimentos da investigação sobre esse sumiço para que reconstitua a narrativa original. Por isso, desfilam pelas páginas as versões parciais de personagens colaterais que testemunharam a ascensão daquela figura hipnotizante. Ganham fala a continuísta desimportante da produtora de vídeos, a pesquisadora oblíqua, a enfermeira oscilante… Com controle quase absoluto, o autor vai despejando pistas nas falas desses depoentes, aumentando a ansiedade do leitor que deseja enxergar a figura completa do quebra-cabeças. Como disse anteriormente, o controle do autor é quase absoluto, já que Cattani desliza em diversos momentos na prosódia de seus personagens, seja porque as falas ficam pouco críveis pelo formalismo das palavras, seja porque os discursos (que deveriam ser claramente distintos) não se impõem como unidades individuais. Quer dizer: a estratégia de tornar os documentos da investigação peças soltas e aparentemente difíceis de encaixar não funciona tão bem quanto se desejaria. Mais de uma vez, o autor tenta explicar algum artificialismo, atribuindo a uma escrivã interferências para uniformizar as falas, mas esse recurso soa mais como desculpa do que como um elemento deliberado.

Apesar disso, O Um é uma novela que merece atenção.

Nas páginas de Cattani, uma produtora de vídeos contribui para que o fenômeno desponte e, literalmente, o Brasil assiste e dá suporte ao surgimento de uma ameaça. Brasil, neste caso, é o videasta Jorge Brasil, joguinho de palavras que não é involuntário. O autor se diverte salpicando personagens na trama, cujos nomes são aliterações sobre nomes verdadeiros.

O leitor atento também poderá se divertir ao reconhecer figuras da política nacional desfilando mal-disfarçadas naquelas linhas…

No seu terço final, entra em cena o delegado Linder que não apenas atua para aglutinar as peças do jogo, mas dá humanidade e tensão narrativa à história. Não se trata de mais um herói típico de histórias criminais, mas de uma esperança legítima que o leitor acalenta por dezenas de páginas. A partir disso, O Um se impõe como uma narrativa que não se contenta apenas a reconstituir um crime, mas a destilar críticas à sociedade e àqueles que lhe dão seus contornos. É o que faz a melhor literatura policial: não se embevece com o sangue das vítimas, mas lança um olhar impiedoso para a cena que nos aterroriza.

O Um dialoga com o nazismo e com sua paródia tupiniquim, o integralismo. Mas também faz referências aos tempos de intolerância e ódio que estamos vivendo nos últimos anos. Não chega a revelar um país diferente, inusitado ou original. Pelo contrário, convida o leitor a reconhecer seu tempo presente, seu país, nossas omissões e escolhas mal feitas. É um momento sombrio e nefasto, terrivelmente familiar. Na telegráfica dedicatória no exemplar enviado, Cattani pergunta: E depois? Eu gostaria de saber responder, e de saber a que desdobramentos aquele inquérito parcial vai levar…

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O pequeno Hitler tupiniquim

Ernani Ssó

Publicado em: 6 de setembro de 2017 no Sul21

Li numa sentada O Um – Inquérito parcial sobre o caso Ingo Ludder, último romance do Antonio D. Cattani. Mas como nem a mim nem ao autor, pelo que conheço dele, interessa a saída mais fácil, distribuir exclamações e adjetivos, vamos com calma. No mais é torcer pra que eu diga coisa com coisa.

Cattani, professor na UFRGS, é mais conhecido, como autor e organizador, pelos livros ligados à sociologia, publicados no Bananão e Argentina, Colômbia, França, Inglaterra, Itália, México e Portugal. O mais badalado – fora da academia, entenda-se –talvez seja A riqueza desmistificada, editora Marcavisual, 2013. Acho que Ricos, podres de ricos, editora Tomo, recém-lançado, deveria ser best-seller: trata-se de uma síntese didática das pesquisas feitas nos últimos dez anos pelo Cattani sobre a acumulação de riqueza pelo pessoal que não faz outra coisa que acumular riqueza e se lixar pro resto da população, algo em torno de 99%.

Além das aulas e pesquisas, ele está metido em vários outros projetos, o que coloca a seguinte questão: onde ele arruma tempo pra escrever ficção? Ou não dorme ou tem uma equipe de elfos domésticos. Aposto na segunda opção, por mais realista.

Cattani começou em 2015 com L (editora Libretos), um romance policial intrincado, com um crime e um amor obscuros, e completamente fora das trilhas tradicionais do gênero. Preciso reler qualquer hora dessas pra ter certeza de que não fui enganado. Em 2016, ainda pela Libretos, lançou Sete dias, um folhetim que escreveu pra se divertir. Agora, em 2017, pela Bestiário, O Um.

Um é como chamam Ingo Ludder, uma espécie de Bolsonaro menos folclórico e brucutu, ou um Dória com o guarda-roupa e a seriedade de sair na imprensa do Sérgio Moro, ou um Trump sem a tagarelice errante e a cabeleira de comercial de Fanta. Apesar de ser um papagaio do pensamento da ultradireita, que gazeou as aulas de História, Ludder parece ter uns dois ou três neurônios a mais que Bolsonaro e, ao contrário do Dória, não age como um camelô mais engomadinho que o normal. Sem o espalhafato do Trump, Ludder tem algo de pastor, um magnetismo meio hitleriano. É bastante sinistro, ou muito sinistro, porque é evidente o vazio que ele é.

Ludder aparece sem um plano, meio como esses malucos que anunciam o fim do mundo pelas esquinas. Mas, diante da reação fanática das pessoas, logo grandes empresários resolvem investir nele. Assim, mesmo que ele diga detestar a política e os políticos, aceita concorrer a uma vaga de senador. Toda uma máquina de propaganda e segurança é montada em torno de Ludder.

Não é fácil falar do personagem. Não temos uma visão frontal dele. O romance é a junção de depoimentos à polícia de pessoas que estiveram envolvidas com Ludder. Quer dizer, o que sabemos é fragmentário, distorcido, com muitas lacunas. Por exemplo, há um segredo envolvendo antepassados de Ludder – talvez seja o caso do racista que esconde um avô negro ou algo assim. Essa visão, de longe e desfocada do personagem, atiça a curiosidade do leitor, mas senti falta de mais detalhes, detalhes de preferência contraditórios. De qualquer forma, dá pra se entrever Ingo Ludder e, através dele, entrever os vermes que fervilham nas entranhas do Bananão.

Outra coisa: as pessoas que fazem os depoimentos. Sabemos quem são, mesmo quando o depoimento é curto, ou incidental. Isso dá lastro ao romance. Sentirmos essas pessoas como reais, gente com quem até cruzamos algumas vezes, em contraste com a imagem distante de Ludder e empresários que ficam nas sombras, nos leva à sensação que temos diante do noticiário: o mundo real, o mundo concreto onde você e eu vivemos, é manipulado por entes incorpóreos, sem nome, sem endereço, sem um propósito claro além do poder pelo poder. Uma personagem se nega a falar de certo ponto pra frente porque sabe que topou com algo muito além de suas forças. Você não conhece esse medo, essa impotência?

Não vou falar do enredo porque isso o leitor tem de viver durante a leitura. Interessa notar que o romance nos dá alguns flagrantes do Bananão atual, com políticos que negam a política, com empresários não apenas corruptos como descarados, com uma Justiça sempre pronta a livrar a cara do pessoal da bufunfa, com marqueteiros macunaímas e gangues de desmiolados que querem resolver tudo no pau. Como se vê, Cattani encara um tema espinhoso, um tema que aparece de modo torto e impreciso na imprensa e que raramente dá as caras na literatura pátria. Bota raramente nisso. Apenas pelo tema O Um já mereceria destaque. Mas além disso Cattani dá uma boa trama, um punhado de personagens reais e o sumiço de Ludder, uma sequência hilária, porque muito provável em seu absurdo grotesco.

Dos romances do Cattani, este me parece o mais ambicioso e o melhor. Rápido, fluente, leve. Cattani começou tarde na ficção, mas começou com uma boa vantagem sobre outros iniciantes: ele conhece o mundo, conhece as pessoas. Sabe-se, sem isso, não há romance nem que a vaca tussa.

PS: É preciso falar da edição da Bestiário: simples, arejada, bonita – realmente profissional. É preciso falar também que não será fácil encontrar o livro, de modo que se deve insistir nas livrarias – pode ser que assim os livreiros descubram que existem autores que não fazem parte da manada de gringos com a pasmaceira de sempre. Quem tem pressa deve ir direto no site da editora.


Ernani Ssó é o escritor que veio do frio: nasceu em Bom Jesus, numa tarde de neve. Em 73, entrou pro jornalismo porque queria ser escritor. Saiu em 74 pelo mesmo motivo. Humor e imaginação são seus amuletos.