R$ 30,00

Título: ANTÍGONA
Autor: Carlos Nejar
Capa e ilustrações: Elizethe Borghetti


Dimensões: 14 x 21 cm
Páginas: 74
Gênero: Poema dramático
Publicação: Class, 2018

Carlos Nejar quis manter a beleza poética da tragédia “sem perder a ternura” e sem estereotipar Antígona como heroína que defende a tradição do sangue e da família (oikos) contra uma visão unilateral do “tirano” Creonte, como defensor da lei da cidade , lei dos homens, lei do Estado.
Em meu livro Os itinerários de Antígona: a questão da moralidade (1992), tentei revisitar essas versões idealizadoras. Na mais difundida entre elas, Antígona procura enterrar segundo os ritos sagrados, seu irmão Polinice, que batalhara do lado dos habitantes de Argos, inimigos dos tebanos. A pergunta então é por que Antígona está disposta a sacrificar sua vida, rebelando-se contra a proibição imposta por Creonte de enterrar somente um dos irmãos fratricidas, Eteocle, e deixar como Polinice, “traidor” (de Tebas) entregue aos ratos e corvos?
Tive a surpresa de encontrar no poema dramático de Nejar resposta a essas perguntas semelhante à que eu esboçara em meu livro. Na minha leitura da tragédia de Sófocles, apoiei-me em Hegel e Jean Hypolite que atribuem aos dois personagens centrais - Antígona e Creonte - a oposição de dois princípios éticos: o da natureza e o da cidade (Estado). Segundo esses dois filósofos, Antígona estaria se identificando com o primeiro (natureza) desses princípios, muitas vezes associado ou confundido com o princípio do sangue, da família e do oikos; Creonte, por sua vez, estaria identificado com o princípio da ética da cidade, comunidade, do Estado. Antígona representaria o gênero feminino que assegura a vida e sua reprodução; Creonte, o gênero masculino que formula as leis da polis para a vida em sociedade.
Para Hegel, na leitura de Hypolite, esses princípios entram em contradição e somente podem ser superados em uma síntese, através da supressão e superação (“Aufhebung”) de cada um desses polos em um novo patamar (Geist/Espírito).
A versão do Poema dramático de Carlos Nejar não desliza para um ou outro extremo e não demonstra uma simpatia especial por um ou outro personagem que os encarna, mas também não antecipa uma “síntese” como sugerida por Hegel. Nejar tampouco segue minha proposta interdisciplinar baseada na versão de Sófocles em que valorizo em Creonte a capacidade do governante, de aprender e rever sua decisão de punir Antígona com a pena de morte. Em seus diálogos com Ismênia, Hemon, seus guardas, o corifeu, o coro e Tirésias, o sábio cego e vidente, Creonte reconhece e procura corrigir o seu erro, dando ordem de soltar Antígona. Ao voltar atrás de sua primeira condenação, desce do seu pedestal e humildemente desobedece à lei da cidade, que ele mesmo criou e representa, dando ordens de soltar Antígona.
Nejar, nos revela um Creonte arrependido, que de início, aparentemente irredutível e ameaçador vai abandonando sua rigidez e seus princípios de governar. Nessa versão, Creonte reconhece seu erro, e procura revertê-lo. Mas isso somente acontece, depois de se dar conta de não ter previsto as consequências (os efeitos colaterais não previstos da ação humana, diria Max Weber) de sua ordem: condenar à morte Antígona, tendo como “efeito colateral” a morte de Hemon e Eurídice. Creonte reconhece assim que o poder limitado do governante, de condenar um mortal à morte, não lhe dá o poder de ressuscitá-lo e devolver-lhe a vida (poder somente concedido aos deuses).
Esse aprendizado cruel leva Creonte (neste poema dramático) ao desespero e ao suplício de viver, carregando a morte dos seus entes como peso e maldição. O poema dramático “Antígona” de Carlos Nejar não somente revela a fragilidade dos mortais incapazes de sobreviver unicamente à base do poder e da razão, mas necessitam da compaixão, que somente um poeta consegue introduzir com sua competência, melodia e ritmo numa das tragédias mais tocantes da humanidade.
O poema termina com as palavras amargas e arrependidas de Creonte: “Tudo começou com Antígona e já não sei o que fazer de mim... Desaba sobre minha cabeça tal fatalidade, tal castigo, agora insuportável...”

Rio, 14 de março de 2018
Barbara Freitag