A LESTE DA MORTE

NILTO MACIEL nasceu em Baturité, Ceará, em 1945. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 70. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77, regressando a Fortaleza em 2002. É editor da revista Literatura desde 91. Obteve primeiro lugar em alguns dos grandes concursos do país, como: Brasília de Literatura, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena (romance) em 1990,Graciliano Ramos, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo (romance) em 1992; Cruz e Sousa, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica (romance) em 1996; Bolsa Brasília de Produção Literária, com Pescoço de Girafa na Poeira (conto) em 1998; Eça de Queiroz, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, com Vasto Abismo (novela) em 1999; VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, Fundação Cultural de Fortaleza, com o contoApontamentos Para Um Ensaio; IV Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará na categoria de pesquisa em Literatura Cearense, em 2007. É autor de Itinerário (contos, 1974); Tempos de Mula Preta (contos, 1981);A Guerra da Donzela (novela, 1982); Punhalzinho Cravado de Ódio (contos, 198);Estaca Zero (romance, 1987); Os Guerreiros de Monte-Mor (romance, 1988); O Cabra que Virou Bode (romance, 1991); As Insolentes Patas do Cão (contos, 1991); Os Varões de Palma (romance, 1994); Navegador (poemas, 1996); Babel(contos, 1997); Panorama do Conto Cearense (ensaio, 2006) e A Leste da Morte(contos, 2006). Tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. O Cabra que Virou Bode foi transposto para a tela (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993.



      “O cadáver, puro sangue, lavaram-no, às escuras, para os confins do cemitério. A leste da cidade. Onde ninguém tão cedo poria os pés. Nem os vivos nem os mortos.E o enterraram numa cova aberta às pressas. A leste da morte."

AS CRÍTICAS

(...) Nilto Maciel reafirma as suas qualidades de excelente narrador, de ficcionista comprometido com as implicações da modernidade literária e com a flexibilidade das estruturas expressivas que dão suporte e colorido à linguagem popular. Os seus contos, até mesmo aqueles que se inclinam para abordagens metafísicas, jamais falsificam a realidade. Estão sempre de acordo com os padrões e a dinâmica estrutural da língua viva, nervosa, inquieta, palpitante, a língua em que o povo exprime as suas emoções, sua alegria; sua dor, os seus cânticos de amor e de paz. (Francisco Carvalho)

(...) ao manipular a complexa matéria prima de fatos e seres, o autor sempre se mantém com as rédeas nas mãos. Graças à notável consciência literária, faz de cada investida uma aventura lúcida, guiada pela sensibilidade e pelo domínio verbal. (Astrid Cabral)

A escolha do foco narrativo, as pinceladas com que singulariza espaço e personagens, o ritmo das ações, a natureza da linguagem (com a mesma força apresenta-se ora efusiva, lírica, derramada; ora, seca, objetiva e incisiva), o tratamento dado aos temas, tudo isso está subordinado à própria atmosfera a que visa o autor construir. (Carlos Augusto Viana)

Em linguagem escorreita e vocabularmente rica, ele transita pelas vias fascinantes do surrealismo às vezes, mas sem se desviar do fio temático. Não se perde nos meandros da história, uma tentativa de retorno ao passado, em que fluem e se misturam fatos e delírios. (Manoel Hygino dos Santos)

Sua oficina romanesca comporta o absurdo, o fantástico, o linear, o surreal e, não raras vezes, o satírico, o burlesco, o humorístico. Seus temas, por diversos, exploram desde o corriqueiro e trivial triângulo amoroso, passando por perquirições do gênero policial, até o mais intrincado universo psicológico. Carpintaria digna dos melhores mestres da arte ficcional. (João Carlos Taveira)

Partindo de consciente domínio do instrumental lingüístico, observa-se que esse procedimento vem se realizando dentro de um jogo verbal em que, usando os componentes da linguagem tal como estes se organizam no sistema expressivo convencional, subitamente o escritor rompe com esse eruditismo vernacular, definindo-se por arranjos estilísticos efetivamente representativos da sintaxe coloquial, em consonância com as variantes culturais dos seres projetados no espaço da ficção. (F. S. Nascimento)

Com uma prosa calcada na versatilidade, sua linguagem e seus personagens transitam num mundo em que realidade e ficção parecem ombrear-se numa fronteira tênue. Os absurdos, as imagens surrealistas, o variado signo de suas abordagens nos remetem aos barrocos e heterogêneos caminhos da história coletiva, pois delirantes situações e contingências são transplantadas do imaginário social, popular e dantesco, com a plasticidade literária que só um narrador arguto como Nilto Maciel é capaz de emprestar. (Ronaldo Cagiano)