A ILUSTRAÇÃO VITAL
Ortega y Gasset
e o desenvolvimento de uma sociedade leitora

   JÉFERSON ASSUMÇÃO nasceu em Santa Maria-RS em 1970 e cresceu em Canoas- RS. É autor de diversos livros, entre ficção, infantis e infanto-juvenis. De 2005 a 2008 foi assessor e coordenador-geral de Livro e Leitura do Ministério da Cultura, em Brasília. Foi secretário municipal de Cultura de Canoas-RS e atualmente é secretário adjunto de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Licenciado em Filosofia, tem Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Filosofia e Doutorado pela Universidade de León (ULE), Espanha.

Eliana Yunes
Instituto Interdisciplinar de Leitura PUC-Rio.

A Cátedra Unesco de Leitura tem procurado que a coleção com seu selo traga algumas contribuições relevantes para pensar a leitura e a formação de leitores. Desde o primeiro título de Marta Morais, Mapa do Mundo (2009), em que crônicas preciosas sobre livros e leituras foram recolhidas como um roteiro para formação do leitor, até o recente Leitura pelo Olhar do cinema (2013), cujos estudos de imagens nos ajudam a entender as representações em torno do ato de ler, não nos afastamos do compromisso de divulgar pesquisas que possam apoiar a tarefa assumida.

Nas sendas trilhadas desde o Proler (91/96), a primeira tentativa de construir uma política de leitura não só em teoria interdisciplinar, mas na prática interinstitucional, seguimos com o propósito de divulgar contribuições singulares e por isso diversas, no que toca aos encaminhamentos e procedimentos na sustentação epistemológica e atuação metodológica para que a formação de leitores deixe de ser uma tarefa restrita à escola e se satisfaça com a mera alfabetização.

Esta pesquisa de Jefferson Assunção, muito relevante para pensar a leitura, porque além da base filosófica consistente é , ao mesmo tempo, oriunda de uma episteme muito pouco explorada, a de Ortega y Gasset, que o autor desenvolve com grande habilidade e faz confluir para o horizonte contemporâneo da ênfase no leitor com seus repertórios de vida, para estabelecer um diálogo com os acervos da cultura. Daí o interesse em editar e promover sua visão teórica que amplia as isotopias pelas quais as políticas públicas em favor da leitura se justificam e se sustentam.

A partir dos conceitos de autonomia x heteronomia, de homens-massa x leitores vitais, racionalismo x vitalismo, leitura funcional x leitura cultural, o pesquisador e gestor de políticas desenvolve a promoção de uma relação da cultura com a leitura, baseando-se no raciovitalismo em que articula uma reflexão proveitosa de Descartes e Nietzsche, para encaminhar melhor a discussão sobre os baixos índices de consumo de livros e as diversas práticas leitoras que se alargam no país, embora a qualidade das leituras permaneça sob forte questionamento. Justamente porque vê, mesmo entre intelectuais uma relação mecanicista com o mundo, aponta os limites de seu desdobramento quando se quer uma sociedade cujos membros sejam sujeitos de seu pensar e decisões, na perspectiva de um compromisso social e ético com a humanidade como um todo.

Com certeza, o caminho argumentativo do livro demanda discussões apuradas sobre recortes conceituais e seu funcionamento, mas é justamente aí que a riqueza da pesquisa abre expectativas que podem contribuir sensivelmente para o debate e a promoção do valor político da leitura. Ao lado do apuro interpretativo, contextualizado, enunciado em bases críticas, a relação com a cultura aponta o homem vivo, de carne e osso, que "sofre" o discurso e suas representações e precisa se inserir com sua história na construção dos sentidos.

Nesta leitura, Jefferson Assumção articula o século XX ao XXI aproximando a distancia de cem anos entre Ortega y Gasst e Edgard Morin, revitalizando o papel da comunicação e da educação através da experiência cultural múltipla, na formação de uma sociedade efetivamente leitora: de livros, de literatura, de formas e movimentos, de discursos e estamentos, enfim de das artes e linguagens em que põe a sistematização da história e da civilização do homem. Reconhece, desde logo, que outros autores, teóricos e gestores de políticas públicas, convergem nesta preocupação e outros se antecipam por outros caminhos a esta discussão.

O grande exercício que desafia o pesquisador, comprometido na prática com uma política cultural de natureza ampla e inclusiva, é justamente, o ponto de partida filosófico que ele habilmente lê para assinalar já no pensamento pós-moderno, lacunas e omissões oriundas de um horizonte da modernidade mal resolvido, que pensadores da esquerda e da direita consensualmente denunciam e aparece em sua pesquisa perspicaz. Este jogo conceitual, muito elaborado, transparece já no título que propõe umaIlustração que seja Vital.

Os três capítulos apresentam uma reflexão de base sobre o lugar da leitura na educação e na comunicação, sobre sua relação com a escrita e a tecnologia, antes de passar ao plano das políticas de livro e da leitura no Brasil, que se iniciaram na década de 90 com a Fundação Biblioteca Nacional e o Proler, para alcançar no sec XXI a formatação de um PNLL, com apoio interministerial, e que, nos tropeços da administração pública vai se consolidando com o esforço de toda uma camada social, de pesquisadores, professores e agentes culturais, num debate em que nação se vê interessada, perseguindo efetivamente a inclusão não apenas na posse de bens materiais, mas o empoderamento cultural e crítico que só a leitura de natureza hermenêutica e semiológica podem favorecer.

A obra que está sob seus olhos, caro leitor, merece leitura atenta e disposição de interlocução para estimular a rede de amplas possibilidades na formação de leitores no país; trazendo a contribuição de um autor que já dispõe de pouco espaço na teoria e crítica da cultura, Jefferson atualiza as preocupações que todo homem de letras, que reconhece seu espaço político na construção do sujeito e da cidadania, enfrenta e elabora. Ele mesmo se junta a esta rede com esta obra que passa a integrar a coleção Leitura & Leitores da Cátedra Unesco de Leitura e seu Instituto Interdisciplinar de Leitura PUC-Rio, associando-se à Fundação Ortega y Gasset.