Francisco Carvalho
De 1974 até agora, Nilto Maciel
publicou dezenove livros de ficção e
apenas um de poemas. O romance e o
conto, conforme se pode observar,
evidenciam as predileções do Autor,
em seu longo itinerário de 33 anos
nos domínios da literatura. Quem já
leu seus livros de ficção terá
notado, certamente, o cuidado do
ficcionista na escolha dos nomes de
seus personagens. Não seria nenhum
despropósito pensar na elaboração de
uma nomenclatura para todos esses
figurantes que trafegam nas páginas
de seus romances e histórias curtas.
Zuza, Pedro Cabral, Eurico, Jesonias,
Otávio, Noé, Alessandra, Cátia,
Márcia, Aluísio, Orlando, Joice,
Cida, Eleide, Cynthia, Ocelo e
tantos e tantos outros que despertam
a atenção do leitor para esse
aspecto importante da carpintaria
dos romances. Até os cachorros de
Palma foram homenageados com
apelidos que se destacam pelo seu
ineditismo e originalidade: Alão,
Brochote, Cafoto, Dentola etc.
O livro começa com a notícia da
chegada de alguns rapazes e moças
procedentes de Brasília. Eram
funcionários públicos que vinham
para as festas carnavalescas de
Palma, cidade utópica criada pela
imaginação de Nilto Maciel para o
desenrolar dos acontecimentos do seu
universo ficcional. Palma não deixa
de evocar a legendária Macondo,
palco das histórias fantásticas de
Gabriel Garcia Márquez, em seu
caudaloso romance Cem Anos de
Solidão. Na página 15, o
inusitado mostra o seu feitiço: “O
galo cantou estridentemente. As
galinhas correram, espantadas. Uma
revoada de andorinhas encheu o céu
dos quintais”. Só faltou acrescentar
que ventos diluviais arrebataram
crianças que sonhavam com os anjos
enquanto dormiam.
A ficção de Nilto Maciel nos coloca
no c entro de uma realidade
fantástica, que nos leva às portas
do surreal. Uma atmosfera de sonhos
e pesadelos permeia as narrativas do
romance. Seus capítulos,
predominantemente curtos, exploram
os conteúdos, sob perspectivas
oníricas, das temáticas
desenvolvidas no livro. Numerosos
personagens contribuem com
depoimentos pessoais para o desfecho
das narrativas. Mas essa
contribuição, eivada de contradições
enigmáticas, paradoxalmente só fazem
aprofundar ainda mais os mistérios
em torno dos acontecimentos. A
cidade e seus habitantes passam a
impressão de atores de um filme de
mistério conduzido por um diretor
voluntarioso, que parece se divertir
com seu elenco de fantoches.
Na página 96, uma sucessão de fatos
provoca calafrios no leitor. Um dos
gatos que farejam pássaros numa
árvore começa, de repente, a crescer
aos olhos de Jacinta. Enquanto
outros felinos fugiam daquela visão
aterradora, o gato assumia as
proporções de um tigre, “abria a
boca e avançava lentamente,
ameaçador”. Juarez, marido de
Jacinta, tentou dar cabo do animal,
mas “a fera estraçalhava Juarez”.
Como se observa, a leitura dessa
narrativa exige do leitor um mínimo
de conhecimento acerca do simbolismo
de que se revestem certos aspectos
do cotidiano. Pode-se afirmar, sem
risco de equívoco, que o simbolismo
está presente em grande parte da
expressão literária do todos os
tempos. E até mesmo nos atos mais
rotineiros da vida das pessoas, sem
que elas se dêem conta desse fato.
Em “Rodopio de moedas” (p. 97),
Nilto Maciel volta a usar das mesmas
estratégias insólitas para despertar
a imaginação do leitor. A conhecida
frase de Shakespeare (“Há muita
coisa entre o céu e a terra a que
não chega a nossa vã filosofia”)
nunca foi tão justificada como nas
páginas desse romance do escritor
cearense. Suas narrativas são
vertentes de onde jorram mistérios e
enigmas da raiz das palavras. Bastou
que uma ave fincasse “as unhas no
telhado da casa de Quincas” para que
fatos estranhos à lógica do senso
comum começassem a acontecer entre
Juarez e sua mulher. Moedas e
cédulas, sacudidas por ventos
misteriosos, vindos não se sabe de
onde, caíam da mesa e espalhavam-se
pelo chão. Tentavam alcançá-las, mas
não o conseguiam. Como se mãos
invisíveis os impedissem de
tocá-las. Algo parecido com as
artimanhas do diabo. Na tentativa de
recuperar as moedas e cédulas,
“Quincas estatelava-se feito um
jarro de porcelana”.
A narrativa da página 27 evoca
certas estratégias de Kafka. Da
troca de palavras entre Gilberto,
Jesonias, Aluísio e Orlando, fica-se
com a impressão de que os
personagens viajam no porão de um
navio que fosse para a Atlântida ou,
talvez, para a eternidade. A mesma
densidade impenetrável envolve os
diálogos obscuros. Lá pelas tantas,
Gilberto produz esta frase de
significado ambíguo: “Estou com
viagem marcada para lá, numa
expedição de alto risco”. Aluísio
vomitava. “De sua boca saíam
pequenos sapos, ratos, baratas.
Gilberto se apavorava e também ia ao
solo” (128).
Carnavalha não é,
seguramente, livro de estrutura
linear. Precisa ser lido com o faro
de quem procura fragmentos de ouro
numa peneira de cascalho. Todas as
narrativas exigem leituras plurais,
precisam atingir a profundidade das
camadas estilísticas onde se
encontram os veios simbólicos. A
realidade desses escritos de Nilto
Maciel é de outra índole. São
realidades submersas que não se
acham à flor da pele nem tampouco na
superfície das palavras. Palma é uma
cidade utópica onde criaturas
utópicas fingem ter os mesmos
defeitos e virtudes das pessoas de
carne e osso. Ao leitor cabe
decifrar os códigos desta linguagem
que nos fala de um mundo possível
para os que já nasceram condenados à
morte. Ou por imprudência ou por
todos os males a que estamos
sujeitos. A única expectativa que
nos acena é a certeza de que “Não se
pode morrer na metade do quinto ato”
de alguma peça de Ibsen.
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NILTO MACIEL
nasceu em Baturité, Ceará, em 1945. Ingressou na Faculdade de Direito da
Universidade Federal do Ceará em 70. Criou, em 76, com outros
escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77,
regressando a Fortaleza em 2002. É editor da revista Literatura
desde 91. Obteve primeiro lugar em alguns dos grandes concursos do país,
como: Brasília de Literatura, promovido pelo Governo do
Distrito Federal, com A Última Noite de Helena (romance) em
1990, Graciliano Ramos, promovido pelo Governo do Estado de
Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo (romance) em 1992; Cruz e
Sousa, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com
A Rosa Gótica (romance) em 1996; Bolsa Brasília de Produção
Literária, com Pescoço de Girafa na Poeira (conto) em
1998; Eça de Queiroz, União Brasileira de Escritores, Rio de
Janeiro, com Vasto Abismo (novela) em 1999; VI Prêmio
Literário Cidade de Fortaleza, Fundação Cultural de Fortaleza, com
o conto Apontamentos Para Um Ensaio; IV Edital de Incentivo às
Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará na categoria de
pesquisa
