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APRESENTAÇÃO
Há, nos personagens de Ana Carolina, uma busca desesperada de afeto,
uma tentativa, sempre malograda, de comunicação. Uma delas, na sua solidão
extrema, só goza em sebos, no meio de obras literárias, e a outra, na
ausência total de interlocutor, pede ao leitor, desesperadamente, que a
leia. "Tudo o que se escreve, um dia será lido", ela afirma, com a
auto-ilusão de que um dia alguém a lerá. A pobre não sabe que o texto é
uma garrafa lançada a um mar inexistente. Mallarmé afirmou que tudo quanto
existe, existe para acabar num livro. Para ser lido, acrescentaria Ana
Carolina. E, às vezes, em forma epistolar, como o personagem que recebe
cartas de amor e se apaixona pela letra da remetente. Mas amar a palavra é
uma coisa, e a amar a pessoa que a escreve é outra bem diferente, como o
personagem cedo descobrirá.
De um lado, os personagens e sua irremediável solidão; de outro, a
linguagem, o texto, e sua impossibilidade de dizer tudo. Sobre estes dois
pólos estão construídos os contos de Ana Carolina, com talento, concisão e
eficiência.
Charles Kiefer
RESENHA
As peças ficcionais de Ana Carolina podem ser vistas como contos de
personagens. São eles o centro de tudo, independentemente do que fazem, de
suas ações. Seres voltados para si mesmos, como se o mundo de fora não
existisse. Assim, não se "vêem" ambientes, a arquitetura de casas,
prédios, ruas. Os personagens como que levitam longe do espaço urbano ou
rural. Talvez nas nuvens. Em "Abraços" a narradora se refere a um
hospital, um quarto, onde está sua tia. Mas durante todo o tempo se volta
para a dor que sente. Suas ações e sensações físicas parecem traços
embaciados num quadro: "saio do quarto", "está muito quente", "o cheiro do
hospital me deixa a cada passo mais triste", "ando sozinha". Ressalta na
história o drama psicológico do protagonista. Nem mesmo a narradora de
"Parafusos" consegue dizer duas ou três palavras sobre o seu trabalho na
fábrica de parafusos, o que poderia dar à narrativa mais encanto,
limitando-se a falar de si mesma, abandonada pelo marido, solitária.
Assim, se trabalhasse numa padaria, numa lavanderia ou em outro tipo de
indústria ou comércio, nada mudaria no conto. O significado do parafuso ou
a sua metáfora poderia ser apresentado com mais pompa.
Seja como for, a contista quis deixar de lado a ação e o espaço para
privilegiar o conflito psicológico. Assim, mesmo nos contos com narrador
onisciente, como "Velhos", o drama interior dos seres é o mais importante.
Muitas das histórias de Ana são narradas por personagens, femininos ou
masculinos. Alguns são bem delineados, outros se escondem do leitor. A
protagonista do primeiro conto é uma mulher, talvez jovem. Nada além disto
consegue o leitor saber. "Chocolate", um dos melhores do livro, tem como
narrador um homem "de mais de 40 anos", "pai de família" que tinha de
trabalhar, pagar as contas, dizer bom dia para a esposa. História estranha
e de rara profundidade psicológica. Esse homem, pai de uma menina de 11
anos, sente-se atraído pelas brincadeiras da filha e de outra menina. Como
se quisesse ser criança de novo. "Eu era muito grande para ficar em pé na
casa de bonecas". No entanto, a narrativa não se completaria ou não se
formaria se a contista não eliminasse a filha, num acidente, deixando o
homem abatido por dias e dias. E a mãe da menina? Estranhamente não
aparece em nenhum momento. Quem reaparece é a outra menina, para dar à
história o toque final: "Coloquei minha mão sob seu vestido, sem
levantá-lo, e toquei-lhe suavemente. Senti-me leve". Talvez um toque de
erotismo.
Em outros contos o personagem principal é visto pelo narrador ou
observador como um ser estranho, esquisito. Em "Entre Livros" a
protagonista é descrita ao longo da narrativa: vive entre livros, anda de
sebo em sebo, entrega-se a homens nas velhas livrarias. No entanto, pouco
lhe importa os sebos e os homens. A personagem vive o seu drama interior e
dele não se afasta: "Em lugar algum do mundo exterior as palavras parecem
tão bem escolhidas e pronunciadas como em seu mundo interior".
Outra característica das histórias de Ana é a não identificação dos
personagens por nomes, o que pode resultar em confusão do leitor. Assim,
não fosse o "ando sozinha", no final do primeiro conto, e o leitor não
saberia sequer o sexo da narradora. Mas isto tem importância?
Vale-se Ana ora da narração, ora do monólogo interior. Talvez nem haja
narração, porque o protagonista fala sempre para si mesmo. Quando o
narrador onisciente conta fatos o faz como se estivesse a espionar os
passos e gestos do outro. E isto se reflete na ausência quase que absoluta
de diálogos, embora a linguagem oral seja a mais freqüente nas narrativas.
Talvez o diálogo se veja somente em "Chocolate", onde o narrador
transcreve algumas falas dele e da menina. Nas outras peças os personagens
parecem não se comunicarem entre si. O narrador de "Amor no feminino"
afirma: "Fiz-lhe uma promessa sem palavras". Isto é, os personagens nem
sequer pronunciam palavras. Apenas agem e pensam.
Nilto Maciel Fortaleza, outubro de 2004.
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