Pequeno Livro dos Deuses Olímpicos
Organização: Paulina 
Nólibos

      Este trabalho é fruto de uma experiência repetida de ensino dos clássicos. Esta área de estudo foi praticamente excluída do ensino formal e conhecer Homero, Hesíodo ou os dramaturgos tornou-se sinônimo de extrema erudição inútil. Mas, como sabemos, tratam-se das bases sobre as quais se edificou a cultura ocidental e a ausência destes conhecimentos tem empobrecido o próprio entendimento do presente. 
      Assim também se posicionaram os integrantes recentemente iniciados que se uniram para a organização desta publicação. Tudo começou com os estudos apresentados numa aula de História Antiga Ocidental sobre Hesíodo, mais especificamente sobre seu catálogo dos deuses, a Teogonia, belamente traduzido por Jaa Torrano. Pesquisas trazidas pelos estudantes nos forçaram a enfrentar a miserável bibliografia acessível sobre o tema existente em língua portuguesa (ou que não esteja esgotado). Surgiu ali a expectativa de transformar estes trabalhos em um organismo: como a maioria dos deuses abordados estava entre os da linhagem de Zeus, a limitação estava naturalmente definida – falaríamos da família dos Olímpicos.
      Apresenta-se aqui uma tentativa de abordagem consistente do conteúdo religioso e literário do mito, limitado à Grécia e a um número fechado de doze: os deuses olímpicos. Os grandes mitólogos da atualidade e algumas das fontes milenares essenciais para o desvendamento do fenômeno do mito serão mencionados, alguns citados literalmente. A mitografia e a mitologia estão postas novamente como um problema na mesa dos psicólogos, dramaturgos e legisladores; e agora, como um problema histórico através da Nova História Cultural e a abertura das discussões sobre o Imaginário. 
      Pretendemos nos colocar entre o dicionário e o livro de história das religiões, com a vantagem de ser um livro pequeno, para uma leitura leve e, paradoxalmente, reflexiva. Além disso, é uma primeira publicação para os integrantes e uma forma de exposição do seu trabalho de pesquisa muito corajosa, o que merece ser mencionado e incentivado. Embora organizado por verbetes, a ordem não é alfabética, mas obedece certa lógica de precedências e prioridades, já insinuando os campos de poder que cada um dos deuses ocupa na comunidade fechada, sendo que Hermes está no fim, posto que seu mito indica ter sido ele o décimo segundo e último a ser recebido entre os iguais. 
      Dentre os grandes dicionários, aos quais não tentamos nos equiparar, recomendamos três que nos foram essenciais: o Dicionário das Mitologias, organizado por Yves Bonnefoy e escrito pelos grandes especialistas franceses das últimas décadas, o de arte, escrito pelos holandeses Moormann e Uitterhoeve, e o Dicionário Mítico-etimológico do estudioso brasileiro J. S. Brandão. E dentre os autores, referenciados cuidadosamente no final do texto, Walter Burkert, responsável pelas mais consistentes indicações, grande normatizator da religiosidade arcaica e clássica. E aos iniciados, que perceberem lacunas, omissões e superficialidade, nos perdoem a audácia de tentar reunir mais de três mil anos de tradição da escrita do mito e de suas interpretações em cinqüenta páginas. Apresentamos o estado da pesquisa atual no sentido de incentivar e criar melhores condições para o ensino-aprendizagem das representações e sistemas simbólicos neste vasto campo que é o das ciências sociais e humanidades. 
      Que novos leitores sejam acordados para o fascínio das antigas histórias.