A COSTURA ARRANCADA

Alexandre Pandolfo nasceu em 1985 em Porto Alegre. Atualmente faz doutorado em Teoria da Literatura, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. É professor e estudante. Escreve principalmente ensaios, dedicando-se também à escrita de contos.

Desde as ruínas do começo o leitor será solicitado a largar a mão da segurança e caminhar sem salvaguardas pelas bordas abismais de um tecido inacabado.
É um convite a mergulhar na medula da sua pele, e deixar que aconteça um corpo a corpo imprevisível, para que o incessante ao atravessar suas texturas não deixe de fluir, e ainda na ruptura, ou melhor, graças a ela, o rastro da errante tinta siga seu curso desviante e incerto. Quiçá um tremor percorra os ossos, mas não há porque desistir, talvez seja a vibração turbulenta do chegante, logo sem saber se estará vivendo e morrendo com mais de um corpo as entrelinhas, as lacunas, as memórias, os fios por vir de esta costura arrancada ao silêncio, os outros corpos que entre detritos ecoam no desejo infinito das palavras, e se incrustam na experiência de uma leitura sem garantias dadas. Assim, não seria estranho que a cinza restante pelas travessias de ficção aqui aventuradas, deixasse sentir o pesado vazio que só uma caixa invadida durante anos por um corpo que lhe é indiferente poderia entender. Nesse vazio colmado de vazio, se poderá passar, pesar, pensar, pender no irrespirável. Mas, em respeito às alteridades que o transbordam, a costura precisa deixarse arrancada ao acaso, assim como a improbabilidade da mudança de ar mantém viva a vinda de algo outro. A interrupção inscrita arde ininterrupta na sua disseminação. Nada do existente está plenamente confeccionado, nem absolutamente dito, a heterogeneidade antecede imemorial. Pela fragilidade de um fio solto os textos podem vir ao encontro. Então, por que abster-se ao sopro da tormenta e desesperar por suturar o corte, em contraponto, por que não insistir contra todo tribunal e curativo paralisantes, e arriscar e relançar-se no insondável de sua abertura sem remédio?

Honatan Fajardo Cabrera