A COLECIONADORA DE CORUJINHAS
José Eduardo Degrazia

NAVEGANDO COM JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA

Interessante ler e escrever dentro de um barco. Nas águas calmas do Guaíba, o movimento é leve como a cadência de um poema. Ou de um conto inteligente e bem-humorado.
O segundo deles também serveria de epígrafe: Os Cabeças-Duras. Aconselho que seja lido várias vezes, de cima para baixo e de baixo para cima. Quem o fizer me entenderá. Ele dá a chave para a compreensão dos demais.
Em verdade, somos todos uns tercos, têtus, stubborns, ou como se traduza essa expressão em qualquer lugar do mundo, de Porto Alegre a Katmandu. Individualistas desde Adão e Eva, teimosos valentemente do berço à tumba, vomitando no babeiro o leite precioso da nossa mãe e exigindo da pessoa amada que nossas cinzas sejam jogadas de um avião no lugar mais complicado: numa praia de Garopaba, por exemplo.
Lembramos de Buñuel? Sim, em muitos contos. O Cego, por exemplo, pode ter sido inspirado no Chien Andalou, primeiro filme do mestre surrealista. E muitos outros, como Pirâmide Humana e A Última Sessão, têm o sabor agridoce de Viridiana.
Vou percorrendo o livro com encanto, chego ao fim, volto ao começo e, de repente, autor e leitor se encontram navegando juntos. Há algum lugar? pergunta o escritor. E ele mesmo responde: Largou o bote no rio e se deixou levar. Fora do centro e distante das margens é o seu lugar.
Da poesia, onde conquistou prêmios na língua materna e em muitas outras, Degrazia transfere para a prosa o domínio tátil e emocional das palavras. Aliás, como dizia Mozart Pereira Soares, a poesia sempre abre caminho para a boa prosa. E principalmente neste estilo de minicontos, onde a síntese é o segredo para a conquista do leitor.
Mas poesia e prosa, irmãs gêmeas desde a Grécia Antiga, só sobrevivem pelo talento e cultura do seu autor. Principalmente da cultura que herdamos ao nascer, seja com cheiro de campo ou de asfalto. Mas também da que vamos juntando pelo caminho, como fez Degrazia, lendo muito, vivendo duas profissões e andarilhando pelo Planeta Terra.
Uma das últimas vezes que conversei com ele foi no agitado café da manhã de um hotel em Havana. Nenhum de nós sabia que o outro estava em Cuba para participar da Feira do Livro. Trocamos algumas palavras simpáticas e seguimos cada um para o mesmo lado.
Sim, Degrazia e eu, embora nos encontremos muito pouco no cotidiano, sempre vamos para o mesmo lado na literatura. Por isso, esqueço a linda navegada e volto à querência, em Alegrete. Apeio do meu cavalo Milagre, tordilho de velha cepa, e abro a porteira deste livro para quem quiser passar. E não esqueço, num gesto largo, de tirar o meu chapéu.

Alcy Cheuiche
Porto Alegre, outono de 2016.