CONTOS DE SOLIDÃO E SILÊNCIOS
Guilherme Cassel

GUILHERME CASSEL nasceu em Santa Maria, em 1956. Engenheiro Civil, é Funcionário Público Estadual, foi Secretário Geral do Governo do Estado do Rio Grande do Sul e Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário.

Publicou na coletânea “Contos de Oficina 18”, organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil.

A SOLIDÃO, O SILÊNCIO

Luiz Antonio de Assis Brasil

O que é preciso dizer, desde já, é que Guilherme Cassel inaugura-se na literatura com um livro “pronto”, para o qual não se deve ter a habitual condescendência para com os novatos.

Sob o crivo de qualquer crítico, os contos aqui reunidos apresentam a dupla condição, vitais à boa literatura: a maturidade estética unida à maturidade temática. Ademais, e isso não é pouco, estes contos têm voz própria, sem nenhuma visível e pesada influência, a não ser da boa tradição narrativa brasileira.

Sob o aspecto estético – alguém diria: linguístico-estilístico – temos uma prosa sóbria, que segue tranquila. Os estreantes, muitas vezes, incidem na heresia de desejar “fazer literatura”, e somem-se num vórtice constrangedor de literatices; aqui não vemos nada isso. Guilherme Cassel opta pela linearidade frasal, deixando a sofisticação para o que, de fato, importa: os enredos e conflitos.

O domínio de seus meios narrativos leva-o a transitar entre a primeira e a terceira pessoa narradoras, sabendo articular adequadamente a voz de quem fala de si mesmo e de quem fala do outro: quando fala do outro, permite-se a elaboração formal, utilizando um léxico culto, mas não erudito, recuperando todas as possibilidades que o idioma permite, como se vê em “As mortes de Ramiro Esteves”. Ao usar um narrador que se revela, o Autor decide-se pelo respeito ao falar cotidiano, sem que isso signifique qualquer espécie de abastardamento da língua, trabalhando num meio-termo altamente criativo.

Se, em literatura, tudo é acertar a medida, Guilherme Cassel atinge-a sem que se perceba o arquejar laborioso do escritor; em outras palavras, quero dizer que o texto dá a impressão de quem ninguém o escreveu – e era isso que Flaubert exigia de um bom romance. Essa “invisibilidade” autoral é, claro, mais uma ficção, mas que explica melhor o que significa a naturalidade da forma. Por razões profissionais, tive o privilégio de acompanhar a trajetória de Guilherme Cassel e posso atestar o quanto o livro de hoje resulta de um aperfeiçoamento, de uma busca incessante, e se hoje vemos uma prosa plenamente adequada, é porque isso foi atingido na compreensão de que o ofício do escritor é, pelo esforço, chegar à simplicidade.

Ainda dentro das opções formais, registre-se a propriedade com que o Autor trabalha tanto o conto-padrão contemporâneo – digamos, com algumas poucas páginas – como o miniconto, este gênero pós-moderno que ainda não esgotou suas possibilidades. O interessante é que se, no miniconto habitual há o registro de um momento, é um flash, o miniconto de Guilherme Cassel narra algo, uma história, enfim – e isso é algo que o distingue de seus colegas de geração e ofício. São contos inteiros, completos.

Gostaria ainda de referir aos finais: constituem em algo à parte. Guilherme Cassel usa-os com sabedoria. Nada a mais, nada a menos, e a escolha é, quase sempre, por uma ação ou, no mínimo, por uma reflexão que conduzirá a uma ação que o leitor desconhece, mas que é capaz de intuir pelo contexto. Sugiro ao leitor que repasse, um a um, esses finais, esses últimos parágrafos – verá o quanto há, neles, um princípio embasador: o de, mais uma vez, saber a medida entre o dito e o não-dito.

Com isso volto à leitura, agora à busca das recorrências temáticas: alguém disse, falando de Antonio Vilvaldi, que ele escreveu 300 vezes a mesma música; e, no entanto, todas são profundamente originais e apaixonantes, tanto pelo aspecto melódico, quanto harmônico ou rítmico. Também se costuma falar no mito pessoal, que cada escritor – qualquer artista – carrega consigo. Todas suas obras representarão, de modo visível ou latente, as mesmas e obsessivas preocupações que, mais do que estéticas, são puramente existenciais.

O título de Contos de solidão e silêncios implica, para já, um programa unificador de todos os textos, a mitologia do Autor. A solidão é uma onipresença; seja a verdadeira, seja a inventada – e neste último sentido é exemplar o belíssimo conto “Ruínas”. O Autor sabe que fazer literatura é jogar com essas ambiguidades do ser humano: a viúva que narra em primeira pessoa a abertura do túmulo do esposo viveu, até então, uma quimera de solidão, uma solidão inútil, capaz de um gesto patético gesto final, para o qual o leitor é preparado desde o início, mas que, ainda assim o surpreende. Ao lado disso, formando pendant com o sentimento da narradora, há um Corvo matafísico, que quer apossar daqueles dejetos humanos, mas nem este é capaz de persistir em sua busca, voando para outros lugares mais prometedores – tal como a narradora. Magnífico conto, a ser incluído em qualquer antologia dos melhores de nosso País.

O silêncio do título, aqui, pode ser entendido de duas formas: tanto é o silêncio das personagens [personagem que abdicam de falar] quanto o silêncio como veladura das intenções narrativas – quanto a esse aspecto, Guilherme Cassel é mestre em ocultar-nos a essência do que deseja dizer, atingindo um estágio que evoca o melhor da contística de Hemingway e apostando na inteligência do leitor. Eis que chegamos no cerne deste livro: ele é todo feito sobre o que não é dito, mas sugerido. As “pistas” que o Autor deixa aqui e ali são capazes de montar todo um arcabouço de intenções. Não se pense, porém, que os contos demandem um leitor privilegiado em cultura e capacidade intuitiva. Qualquer leitor poderá entendê-los, e isso é uma verdadeira proeza literária. Mais uma vez lembramos o sentido da medida, revelador da consumada capacidade técnica do Autor: nem o texto pode ser escancarado, nem pode ser críptico. O primeiro gera o tédio; o segundo, a perplexidade e a sensação do logro.

O silêncio das personagens decorre de algo íntimo, quieto e pessoal – como o silêncio da viúva de “Ruínas”-, mas igualmente de um sentimento coletivo e atávico: Quem vive no Sul, quando envelhece, naufraga em silêncios. Aos poucos, vamos aprendendo a desconfiar das palavras, a evitar a ilusão do entendimento. É quando a memória se apodera da vida e nos inunda com seus cheiros, texturas e fantasmas; quando, enfim, compreendemos que ficamos sós.

Eis aí, na abertura do conto “Sul” um dos tantos exemplos dos silêncios do livro, e que nos fazem entender o porquê da aliança implacável da fusão entre o silêncio e a solidão. Uma decorre da outra, numa simbiose que não dá margens a evasivas ou fuga.

As personagens de Guilherme Cassel, assim, vagam sempre numa iminência, que é simbolizada pelo evento que não acontece, aquele evento transcendental que irá tirá-las do abandono, da culpa, da solidão, restituindo-as à vida “normal” das pessoas “felizes”. Isso acontece com o protagonista-narrador do excepcional “Feliz Aniversário”, um assaltante para quem o fruto do crime é para revigorar um afeto, o único que o prende à vida e é capaz de justificar suas ações – mas se trata de uma felicidade efêmera, que amanhã será substituída, mais uma vez, pela dureza do real.

Da leitura de Contos de solidão e silêncios ficam algumas conclusões: a primeira, insofismável, é: a literatura brasileira ganha um novo e exímio autor; a segunda é que é possível, recolhendo elementos do dia-a-dia, transformá-los em motivo de discussão sobre este ente tão complexo, contraditório e, por fim, extraordinário, que é o ser humano.

Parabéns ao Autor, que começa já no ápice – e parabéns a nós, seus leitores, que somos brindados com uma autêntica, sincera e insubstituível obra de arte.