A presença do estranho alteou-se no arco do portão.

— Eu vim em nome Dele. Você precisa...

Os gestos dos lábios ressequidos mal tornavam audíveis os sons articulados. A mulher recuou, assustada.

— O que deseja a estas horas?

— Vim trazer-lhe amor. Amor! Ouviu?

Pelo vão da entrada ele avança, como quem se desloca. Mas não parece disposto a sacar da arma que traz na cintura, nem demonstra qualquer indecisão. Ela pôde então ver-lhe o rosto onde as marcas da varíola deixaram exposta a fúria cerrada das bolhas, a explosão silenciosa da epidemia e a falta de assistência, longe, talvez no interior abandonado. O esmalte dos dentes estava coberto de nicotina. Tabaco de corda - pensou a mulher. Viu-lhe a seguir o pescoço, veias tufadas de sangue quente. A disposição elástica dos músculos, lembrando os trabalhadores do campo, pele queimada do sol, um vulto curvado na platibanda de um prédio em construção, assentando tijolos. Sim, podia ser isso. As mãos rudes, grosseiras. Era isso. Precisamente.

— Mas eu não lhe chamei. Nem estou precisada de seus serviços profissionais.

— Eu vim porque você necessita. Nunca venho se alguém não precisa de mim.

Recuou para dentro da casa. Ele a seguiu antes mesmo que ela tivesse tempo de fechar a porta. Ambos se viram na sala principal, mas a casa parecia deserta. A indiferença dos objetos era marcada pelo ritmo do pêndulo devidamente protegido na caixa secular do cronômetro. Tajás e palmeirinhas de estufa assistiam, também, sem a menor idéia de que podiam gritar, quando fosse noite, e as palmeiras agitarem seus leques, quando o vento da tragédia acenasse.

— Por favor, vá embora!

Seu medo era tamanho que resolvera proteger-se, agarrando-se com ele. E assim atravessaram o corredor vazio, as dependências invadidas pelo sossego da hora, o quintal e o jardim; por um impulso do mais forte, estacaram debaixo de um caramanchão distante alguns metros de uma cisterna decorada com motivos ibéricos. Foi nesse ponto que a mulher soltou aquele grito que já lhe intumescia a garganta, percorria-lhe o corpo trêmulo. A voz tomou a forma de uma tocha vermelha e atravessou as ruas da cidade. No local, uma sinuosa caligrafia de sangue, dominando o espaço hipotético de cinco rosas desfeitas, compunha um delta na superfície do ladrilho. Mas nada existia que indicasse a origem do grito.


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Jorge Tufic (1930)
Jorge Tufic Alauzo nasceu em Sena Madureira, AC. Escritor e Jornalista, pertence a várias academias e sociedades culturais em vários Estados do país. Reside há muitos anos em Fortaleza Tem publicados mais de 40 livros de poesia, ficção e ensaios, dentre os quais: Varanda de pássaros (Manaus: Edições Madrugada, 1956); Chão sem mácula (Manaus: Edições Madrugada, 1966); Os filhos do terremoto (Manaus: Livrornal nº 01, 1978); Poesia reunida (Manaus: Edições Puxirum, 1988); – Boléka: a onça invisível do universo (São Paulo: Edições Puxirum, 1995); Quando as noites voavam.(Manaus: Edições Puxirum, 1998); Poema-coral das abelhas (Fortaleza: Edição do autor, 2000); O sétimo dia (Fortaleza: Ao Livro Técnico, 2005).