O mar estava calmo, naquela noite. Na pequena embarcação se acomodavam seis homens, todos silenciosos. Viajavam tolhidos de medo, evitando olhar para as sombras vizinhas.

Ainda era possível pensar no litoral, na cidadezinha inflando de mansões pela areia, enquanto os nativos catavam caranguejos. Os estrangeiros chegaram com o único propósito de gastar dinheiro em orgias festejadas ao sol-pôr. Sobre eles, criaram-se lendas, exageros: não se podia olhar para um, sem temor de ataques, risos frouxos, corpos ébrios... E foi talvez pelo susto que todos se submeteram.

Antes dos homens, foram as mulheres, pioneiras em tudo. Bateram às portas douradas, oferecendo serviço quase gratuito __ a paga era entrar no outro mundo, onde existiam salões com bandejas de cristal. Sentiram um breve frenesi ao pisarem (descalças, como sempre) tapetes feitos de pele de urso. Viram os olhos transparentes dos forasteiros, a boca rubra daquelas damas, que não podiam ser simples mulheres __ e prostraram-se aos seus pés, já escravas.

Os machos seguiram pela natural busca das companheiras, confinadas em mansões, agora babás, cozinheiras... Acabaram ficando, como pedreiros, mecânicos, pintores ou paus-pra-todo-galho. Também não cobravam nada, exceto o prazer de ouvirem falar os sons misteriosos, oráculos. As crianças eram as únicas a ficar de fora, por nada oferecerem, a não ser um impulso destruidor de taças e espelhos. Cresceram meninos e meninas meio selvagens, pela praia: os mais velhos ensinavam qualquer coisa aos menores, na ausência constante dos pais. E aprenderam a busca e captura dos crustáceos, a subida nos coqueiros, o trançado das redes e chapéus. Andavam com o sal no corpo, esperando o dia de entrarem, também eles, nos lares estrangeiros.

Não foi assim com todos, porém. Na cidade inteira, contavam-se seis que não queriam seguir os outros. Desde pequenos, formavam um grupo à parte, visto de revés pelos restantes. Faziam, no fundo, uma ameaça, retorno ao primitivo. E se de repente ninguém mais quisesse estar nas mansões, que seria deles? Estariam condenados à eterna vida de lama e peixes, vento e céu, sem nunca terem o gosto de pisar a laje fria e ver as cores de um teto bem traçado. O sonho de seus pais, a felicidade a duras penas conseguida __ e a esperança de, em várias gerações, estarem eles tão estrangeiros quanto os próprios, em língua e costumes __ tudo perdido.

Um dia, os seis decidiram desertar. Eram os estranhos impossíveis naquela terra. Combinaram a viagem, o bote, e todos souberam, e foi grande o alívio. Na noite da partida, houve até despedidas amáveis, que não esconderam certo rancor. Os outros sentiam (estava claro em seus rostos) a perda de saírem aqueles homens, ainda sangue seu, ainda gente sua, a estabelecer-se noutra parte. Imaginavam que, mesmo depois de anos, um deles contaria: “Nasci em tal cidade”. Ideal seria desaparecer com os estranhos de uma vez, varrê-los como se faz com os maus pensamentos.

Adivinharam os seis, aquelas idéias. Por enquanto, só um pressentimento, sobre as ondas quentes. Não esperavam que os nativos tivessem o último gesto de retorno às origens, reaprendendo a feitura de arco e flecha, extraindo o veneno do sapo. Agora, apenas o medo, entrecortado de recordações como estrelas, fura a memória. Os seis têm toda a morte para esquecer. Nesta noite de janeiro, ninguém mandará barcos de pesca recolherem seus corpos perdidos no mar.



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Tércia Montenegro (1976)
Tércia Montenegro Lemos nasceu em Fortaleza, CE. É professora de literatura, com graduação em Letras e mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará, onde atualmente cursa o doutorado em Lingüística. Publicou os livros de contos, premiados nacionalmente, O Vendedor de Judas (Fortaleza: Edições UFC, 1998; 2ª ed., Fortaleza: Demócrito Rocha, 2003); Linha Férrea (São Paulo: Lemos Editorial, 2001) e O resto de teu corpo no aquário (Fortaleza: Secult, 2005). Escreveu ainda o ensaio biográfico Oliveira Paiva (Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2003) e participou da antologia 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira — org. Luiz Ruffato (Rio de Janeiro: Record, 2004).