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Aquela roda de samba
no quintal da casa do Chico Alfaiate, nos fins de semana, incomodava
bastante os vizinhos, pois entrava pela madrugada, indo às vezes mais
longe. Lá estavam o Paulinho e o Morais nos violões, o Almeida no
cavaquinho, o Beto no surdo, o Macaco no tamborim e o dono da casa no
pandeiro, fora os cantores. Por mais bonitos que fossem os sambas, era
duro não poder dormir e ficar escutando compulsoriamente “Leva, meu
samba, meu mensageiro”...
Em volta dos sambistas, vários homens e mulheres, inclusive e
principalmente Dona Zefinha que, segundo alguns sussurravam, o Chico
Alfaiate havia tirado da lama: tinha sido meretriz mesmo. O que não
impediu que o Chico Alfaiate casasse com ela de papel passado e tudo.
Quem, por acaso, sem saber de nada, visse o grupo reunido, todos amigos,
sambando, não imaginaria que um daqueles tocadores conhecia a intimidade
de Dona Zefinha. Conhecera, porque tudo era passado. O que se murmurava,
de longe em longe, é que o Macaco, o do tamborim, caboclo forte,
atarracado e feito, havia sido freqüentador assíduo, no cabaré da Suzete,
da cama da Zefinha, bem antes de ela poder ser chamada de Dona.
Evitava-se falar sobre esse passado, embora a presença do Macaco naquela
roda de samba quase obrigasse os poucos sabedores da história a
rememorar a vida pregressa da Sra. Dona Zefinha, mulher de Chico
Alfaiate. Muito querida por estar sempre ajudando a todos, talvez fosse
este o motivo pelo qual os conhecedores do segredo continham o ímpeto
natural de espalhá-lo.
E haja samba, às vezes até o dia amanhecer naquele bairro pobre mas
aparentemente feliz: “... este recado, para o meu amor primeiro”.
Numa tarde de quarta-feira, correu a notícia estarrecedora: o Macaco
havia sido assassinado. Como? Por quem? E por quê?
Só havia resposta para a primeira pergunta: mais ou menos aí pelas duas
da tarde, numa rua das imediações, àquela hora quase deserta sob um sol
escaldante, o caboclo, aproveitando a sombra de um fícus-benjamim,
fumava tranqüilamente quando um carro, desenvolvendo alta velocidade,
passou, no momento em que estalou um tiro. Quem olhou para o Macaco viu
que ele balançou, curvou-se para a frente e tombou na calçada.
Não houve uma pessoa que anotasse a placa do veículo, e até hoje ninguém
foi apontado como suspeito desse crime.
Quanto aos vizinhos do Chico Alfaiate e de Dona Zefinha, esses nunca
mais tiveram de ficar acordados de madrugada, ouvindo sambas
compulsoriamente nos fins de semana: “... vai dizer que ela é a razão
dos meus ais. Não, não posso mais”...

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Sânzio de Azevedo (1938)
Rafael Sânzio de Azevedo nasceu em Fortaleza, CE. Doutor em Letras pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, é Professor Visitante da
Universidade Federal do Ceará. Ensaísta e poeta, tem também contos
publicados em periódicos do Ceará e de outros Estados. Tem editados,
dentre outros, os ensaios Aspectos da literatura cearense
(Fortaleza: UFC, 1982); A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará
(2ª ed. Fortaleza: UFC, 1996); Novos ensaios de literatura cearense
(Fortaleza: UFC, 1992); O Modernismo na poesia cearense (Fortaleza:
Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, 1995); Adolfo
Caminha: vida e obra (Fortaleza: UFC, 1997); O Parnasianismo na
poesia brasileira (Fortaleza: UFC/Sobral: UVA, 2004); e no gênero poesia
Cantos da longa ausência (São Paulo: Bentivegna, 1966); Canto
efêmero (Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1986);
Cantos da antevéspera (Fortaleza: UFC, 1999).
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