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O vasto horizonte mirado
com angústia: primeiro as sobrancelhas cerradas, a mão em pala; depois
os óculos claros, vislumbrando ínfimos detalhes; mais além o binóculo
rápido; e por fim a luneta de tripé apoiada no peitoril da janela. (A
porta da frente travada, os galhos ressequidos sobre o muro.)
Em cima da mesa o velho manual de técnicas de fuga, de caminhos
alternativos, de atalhos perfeitos. Aos seus pés a gasta bússola, mapas
encardidos e rabiscados nos trópicos. A xícara de café esquecida; a
bagana de cigarro inútil nas cinzas. (Quanto mais longe... — o país
distante, um mundo imaginário, paisagens de televisão.)
Os olhos peritos não enxergam mais os pés gastos, as unhas compridas, o
filete de baba maculando o colarinho, as baratas no canto escuro do
quarto. No quintal o verde úmido dos musgos, o tronco seco da goiabeira,
os cacos de telhas trocadas no último inverno.
Rangendo leve a cadeira de balanço da companheira triste, também
esquecida dos filhos distantes, a esperar eternamente pelo retorno das
andorinhas, o cantar dos galos nos quintais vizinhos, rezando uma prece
em silêncio, no mais absoluto silêncio...
Por último cavou trincheiras no jardim, e montou observatório no galho
mais alto da ingazeira do quintal, canto algum ficou descoberto de um
possível ataque. Testou todos os alarmes, checou lunetas e binóculos,
lustrou a gasta espingarda. E nem se deu conta de que o adversário,
zeloso de seus cuidados, se infiltrara há muito em sua guarda, já
organizava junto com ele as mil situações de defesa, sussurrando em seu
ouvido opiniões absurdas, desfocando lentes, cuspindo debochado no
assoalho da sala enquanto ganhava a confiança de sua companhia. (Se não
olhasse para tão longe já o teria visto, de sorriso maroto, destampando
as panelas no fogão.)

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Pedro Salgueiro (1964)
Pedro Rodrigues Salgueiro nasceu em Tamboril, CE. Contista, tem editados
os livros O Peso do Morto (1ª ed., São Paulo: Giordano, 1995; 2ª
ed., Recife: Bagaço, 1997), O Espantalho (Fortaleza: UFC/Programa
Editorial–Casa de José de Alencar, 1996), Brincar com Armas (Rio
de Janeiro: Topbooks, 2000/Edição On-line–França: Éditions 00h00.com,
2001) e Dos Valores do Inimigo (Fortaleza: UFC, 2005). Participa
de várias antologias, dentre as quais Geração 90: Manuscritos de
Computador – org. Nelson de Oliveira (São Paulo: Boitempo, 2001);
Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século – org. Marcelino Freire
(São Paulo: Ateliê, 2004) e Contos Cruéis – org. Rinaldo de
Fernandes (São Paulo: Geração Editorial, 2006). Recebeu vários prêmios
literários nacionais e internacionais.
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