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Quando eu ficava na
rede, esperando o vento trazer uma idéia para sair do sufoco e ganhar
dinheiro, o tempo não passava. Às vezes, de uma hora para outra, me
batia uma tristeza medonha. Aí é que não dava vontade de sair da rede.
Ainda bem que ela apareceu numa tarde e eu a vi, deitado, empurrando o
pé na parede, tentando tirar um som do rangido do armador.
Oi! vim aqui visitar sua mãe, mas parece que ela viajou...
Nem notei, parece que está em Zanzibar! Ontem ouvi alguém comentando que
estava atrás de um presente para minha irmã...
Tá, depois eu volto.
Ela saiu e deixou um telefone para minha mãe se comunicar com ela,
Helena, me parece.
Numa tarde dessas, meu irmão me chamou para eu resolver umas coisas para
ele, no centro da cidade. Detesto o centro das cidades, principalmente
aos domingos, aquela solidão, aquelas pessoas de domingo, os prédios e
as casas tristes, os bêbados nas calçadas. Saí do banco e fui ao
cartório de títulos, depois fui a uma lanchonete comer aquele
pastelzinho com caldo de cana que meu pai levava todas as noites da
minha infância. Ao pagar a merenda, esbarrei nela, Helena, me parece, e
vi que era linda. Pedi desculpas e saí apressado para o encontro com meu
irmão. Quando entrei no ônibus, fiquei olhando pela janela fixamente
para o meio-fio que passava rápido, como o tempo no relógio do universo.
Voltei para casa e procurei o telefone dela. Revirei gavetas, livros,
armários, nada, escavaquei um monte de cestinhas, que só servem para a
gente perder as coisas, e nada. O jeito era esperar que ela surgisse de
repente ou que minha mãe voltasse de Zanzibar para me dizer onde ela
mora.
Oito dias depois, minha sobrinha trouxe um hipopótamo para o jardim e
ele, deitado sobre as roseiras, tirou a única possibilidade de eu poder
ofertar a Helena um pouco do que restou de mim.

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Gildemar Pontes (1960)
Carlos Gildemar Pontes nasceu em Fortaleza, CE. Poeta e ficcionista.
Editor da revista Acauã. Professor de Literatura da Universidade Federal
de Campina Grande, PB. Doutorando em Literatura na Universidade Federal
da Paraíba. Dentre os vários livros publicados, destacam-se em poesia
Metafísica das partes (Fortaleza: UFC/Casa José de Alencar, 1991);
O olhar de Narciso (Fortaleza: Edufc, 1995); e na prosa, A
miragem do espelho (João Pessoa: Editora da UFPB, 1998); Porta
Fólio (Jaboatão dos Guararapes: EGM, 2004. Detentor de vários
prêmios literários.
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