-Vagabunda!

-Vagabundo!

Pronto. Sintonizados como diante de um bicho do horóscopo chinês, eles se aproximaram do fim do corredor. Dali, o fim do dilema: ou descer pela escada ou esperar o elevador. A janela, resguardada por uma redinha. Olharam-se com os raios do olhar ricocheteando nos calçados. Mudos. Ele tocou o botão, luz, som. Ainda bem que o elevador já descia e ali parara. Três viajantes silenciosos e o alívio cuspiu no incômodo de qualquer possibilidade de mais constrangimento.

Por que mesmo atacara ou contra-atacara? Quem começara aquele silêncio de trevas, não sabiam mais. Desalojada qualquer serenidade, a chegada ao térreo. E agora? Outra expectativa e outro olhar desenxabido, um ao outro.

Não fora a primeira vez que se insultaram. Aquilo estava se tornando verdadeiro. Gostavam-se, passaram a gostar de trocar insultos. Até nisso dessarranjavam o que poderia ser uma discórdia passageira, atenuada pelo tempo. Não, aquilo não podia descer aos ratos e ter chafurdada a lama. Acostumar-se é morrer!

Ela pensara muito antes de desferir a primeira carga de impropério. Ele apenas repetira o chavão da imbecilidade ancestral. Mas, se ela assim fizera, poderia ter pesado ele, é o fim. Mulher nenhuma cospe em pratos limpos. Pensando assim, ao sair da porta principal da Torre Del Paseo, cruzou os dedos, gesto de ataque, como se sacasse a espada e repetisse com os maxilares contraídos a pecha. Porém, desta vez ela apenas sorriu. Muita malícia e talvez desencanto.

Um garoto acabara de buzinar. Ele desceu as escadas com o coração na garganta.



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Jorge Pieiro (1961)
Jorge Alan Pinheiro Guimarães nasceu em Limoeiro do Norte, CE. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É professor de Literatura e sócio-diretor da Letra & Música Comunicação Ltda. Publicou, dentre outros títulos, Caos Portátil (Fortaleza: Letra & Música, 1999); Fragmentos de Panaplo (Fortaleza: Ed. do autor, 1989). Participa de várias antologias, dentre elas Geração 90 – Manuscritos de computador e Geração 90 – Os transgressores (São Paulo: Boitempo, 2001 e 2003, respectivamente) – org. Nelson de Oliveira; Os Cem Menores Contos da Literatura Brasileira – org. Marcelino Freire (São Paulo: Ateliê, 2004). Como ensaísta, tem trabalhos editados em várias revistas, jornais e sites do Brasil e do exterior.