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Estendeu-se no
leito, como se fosse santo. A idéia de uma encíclica tomava-lhe a mente
desde cedo. Cogitações em elos. No entanto, uma dor no peito o fazia
indisposto. O mundo pegava fogo, no seio da Igreja antigas vilanias
renasciam entre colunas, pelos corredores, nos átrios. E no interior dos
corpos os invisíveis seres do mal se agitavam, destruíam paredes,
cavavam fossos. Precisava dormir, descansar. O fogo não se apagaria de
vez, mas pelo menos algumas chamas poderiam se tornar mais brandas. Eu
sou Deus. Os astros olham para mim, pequeninos. Vejo tudo, a Terra, as
estrelas, o firmamento, o infinito. Sobre o chão as criaturas em
permanente matança. Comem, bebem, dançam, correm, fornicam, nascem,
morrem. Asco de tudo e de todos. Por que não fulminá-los com raios?
Carne queimada, pronta para o consumo. Cócegas, coceiras. E se
aniquilasse tudo? Cidades, campos, o mundo? Coça-se com insistência.
Formigas passeiam por seu corpo. Sacode-se na cama. O mundo treme em
nunca visto terremoto. Tempestades, águas revoltas, incêndios, vulcões
parece explodirem a Terra. Inúmeros pequenos seres tomam conta do corpo
do Papa. A dor no peito aumenta. Gases escapam do orifício. Ouvem-se
estrondos na alcova. Iniciava-se a destruição do orbe. Eu sou o
destruidor do mal. Mais gases infestavam o ambiente. Pelo reto saíam
diminutas massas. O mundo fedia e nada o aromatizaria. Entretanto, o
Sumo Pontífice sonhava além da realidade. Sentado em imenso vaso
sanitário – semelhante ao sólio papal – defecava. Em baixo se formava um
monte de excrementos, que aumentava a cada instante. Ao redor do vaso ou
do trono as fezes se acumulavam e ocupavam todo o espaço da sala. O
pobre homem sentia sufocar, fazia esforços para respirar. Os resíduos já
fervilhavam, como se em processo de fermentação. E sempre a se
avolumarem. Em pouco tempo, todo o ambiente se repletava de massa fecal.
O ser havia desaparecido, soterrado pelas fezes. Ora, eu sou feito de
fezes, eu sou um monte de fezes. Eu sou isto tudo. Mas sou Deus, antes
de tudo.
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