Estendeu-se no leito, como se fosse santo. A idéia de uma encíclica tomava-lhe a mente desde cedo. Cogitações em elos. No entanto, uma dor no peito o fazia indisposto. O mundo pegava fogo, no seio da Igreja antigas vilanias renasciam entre colunas, pelos corredores, nos átrios. E no interior dos corpos os invisíveis seres do mal se agitavam, destruíam paredes, cavavam fossos. Precisava dormir, descansar. O fogo não se apagaria de vez, mas pelo menos algumas chamas poderiam se tornar mais brandas. Eu sou Deus. Os astros olham para mim, pequeninos. Vejo tudo, a Terra, as estrelas, o firmamento, o infinito. Sobre o chão as criaturas em permanente matança. Comem, bebem, dançam, correm, fornicam, nascem, morrem. Asco de tudo e de todos. Por que não fulminá-los com raios? Carne queimada, pronta para o consumo. Cócegas, coceiras. E se aniquilasse tudo? Cidades, campos, o mundo? Coça-se com insistência. Formigas passeiam por seu corpo. Sacode-se na cama. O mundo treme em nunca visto terremoto. Tempestades, águas revoltas, incêndios, vulcões parece explodirem a Terra. Inúmeros pequenos seres tomam conta do corpo do Papa. A dor no peito aumenta. Gases escapam do orifício. Ouvem-se estrondos na alcova. Iniciava-se a destruição do orbe. Eu sou o destruidor do mal. Mais gases infestavam o ambiente. Pelo reto saíam diminutas massas. O mundo fedia e nada o aromatizaria. Entretanto, o Sumo Pontífice sonhava além da realidade. Sentado em imenso vaso sanitário – semelhante ao sólio papal – defecava. Em baixo se formava um monte de excrementos, que aumentava a cada instante. Ao redor do vaso ou do trono as fezes se acumulavam e ocupavam todo o espaço da sala. O pobre homem sentia sufocar, fazia esforços para respirar. Os resíduos já fervilhavam, como se em processo de fermentação. E sempre a se avolumarem. Em pouco tempo, todo o ambiente se repletava de massa fecal. O ser havia desaparecido, soterrado pelas fezes. Ora, eu sou feito de fezes, eu sou um monte de fezes. Eu sou isto tudo. Mas sou Deus, antes de tudo.

Quando acordou, a cama coberta de dejetos, lembrou-se da encíclica e escreveu na parede, com os dedos sujos: Urbi et orbi.



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Nilto Maciel (1945)
Nilto Fernando Maciel nasceu em Baturité, CE. Um dos criadores da revista O Saco (1976). Editor da revista Literatura, desde 1991. Ganhador de vários prêmios literários nacionais. De sua extensa obra, destacam-se Itinerário (São Paulo: João Scortecci Editora,1.ª ed. 1974, 2.ª ed. 1990); Punhalzinho cravado de ódio (Fortaleza: Secretaria da Cultura do Ceará, 1986); O cabra que virou bode (São Paulo: Editora Atual, 1.ª ed. 1991, 2.ª ed. 1992, 3.ª ed. 1995 e 4.ª ed. 1996); As insolentes paras do cão (São Paulo: João Scortecci Editora, 1991); Vasto abismo (Brasília: Ed. Códice, 1998); A última noite de Helena (Campinas: Editora Komedi, 2003); escreveu também Panorama do conto cearense (Fortaleza: Editora Códice, 2005).