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Abri uma porta e uma
mulher desconhecida me beijava. Na anterior, era um animal enorme que se
atracava em mim numa luta, beijo, curra, quem sabe? Na próxima porta eu
era uma mulher, um tanto feia, vá lá, mas muito bem servida de carne. Em
nova porta paralela, fui só uma música, qual mesmo?
A dor de uma saudade
Vive sempre em meu coração
Ao relembrar alguém que partiu
Deixando uma recordação
Nunca mais...
Hão de voltar os tempos,
Felizes que passei em outros carnavais
Abri outra porta e eu estava nu, sem pudor qualquer de me mostrar.
Noutra porta, enorme susto, eu era só uma fruteira. É, fruteira mesmo,
daquelas cheias de frutas vermelhas, amarelas, maduras dando açúcar e
formiga. Muitas portas não consegui abrir nem à força de muque nem de
ferramentas, nem com batidas nem com abre-te sésamos. Sempre assim, todo
ano. Há quantos anos? Sei lá eu !!! Sei é que odeio carnaval e odeio
porque foi num que me perdi e porque é na repetição de novos carnavais,
ano após ano, que me procuro sem conseguir me encontrar. Quem sou eu? A
loira que passa vestida de brilhos, a lua com cara de palhaço minguante
em fim de feira, o anão bêbado com cheiro de couro velho, o urso suado
preso na coleira, a passista que rebola para o pandeiro, ou o pandeiro,
a carmem miranda que não foi pro céu porque foi enterrada de rouge e
baton, o homem vestido de mulher com meia de seda e frufru, o
carnavalesco que morreu na terça de carnaval... Quem sou eu que não me
acho e que me procuro todos os anos sem nem saber qual é o meu nome?
Eu sou aquele pierrô
Que te beijou
E te abraçou, meu amor...

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Micheliny Verunschk (1972)
Micheliny Verunschk Pinto Machado nasceu em Recife, PE. É professora de
História e mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC/SP.
Publicou os livros de poemas O Observador e o Nada (Recife:
Edições Bagaço, 2003) e Geografia Íntima do Deserto (São Paulo:
Editora Landy, 2003. Tem inédito um livro de contos.
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