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A mala voltara quase vazia
como fora; sua mente, no entanto, estava repleta. Visitara museus,
bibliotecas e livrarias.
O pequeno quadro, presente de um amigo, foi acomodado entre os inúmeros
que pendiam assimetricamente da parede da sala. Encontrar um espaço ali
era quase impossível. Afastou-se para ver o resultado e teve a impressão
de que algo se movera. Aproximou-se com medo de que fosse um inseto. Não
viu nada.
Os quadros mais antigos se alargaram e forçaram os mais recentes a se
comprimirem. Nesse empurra-empurra alguns se inclinaram, Ingrid percebeu
o leve rumor e recolocou-os em seus lugares. As cinco mulheres de branco
que, no quadro de moldura negra, se dirigiam às suas casinhas
assustaram-se com o movimento e apressaram o passo.
A luz atravessou a janela e pousou sobre o quadro em que uma moça
caminhava por uma rua ensolarada. Ela estancou o passo, largou a cesta
que mantinha encostada ao quadril e rodopiou sobre o calçamento
irregular.
Ingrid pôs um CD de Chico Buarque e iniciou uns passos de dança. As
pessoas do quadro em tons vermelho e negro, que observavam uma festa
popular, voltaram-se e a aplaudiram com entusiasmo. Sem perceber o que
se passava na parede de sua casa. Ingrid apanhou as ilustrações que
trouxera do Museu Dorsay e estendeu-se no sofá abaixo do quadro em que
um pintor fazia seu auto-retrato. O pintor abandonou palhetas e tintas e
passou a observar, junto com ela, as reproduções.
Um forte sopro de vento alçou as cortinas e avivou as figuras dos
quadros. As três mulheres que conversavam, ao lado de grandes cestos
cheios de conchas, despiram suas longas saias, retiraram os panos da
cabeça e correram, numa nudez branca, em direção ao mar. Ao mesmo tempo,
as pessoas do quadro abaixo, que caminhavam com tranqüilidade ao lado do
Sena, puseram-se a correr confusas em todas as direções. Já não se
obedecia aos limites impostos pelas molduras. Aprisionadas no tempo, não
sabiam para onde ir ou o que fazer. Atônitas descobriam um novo mundo.
Uma mulher que parecia ter saído de uma revista de modas da década de
cinqüenta falou em francês para um enorme galo que se mantinha parado:
Por que você não se move? — O galo mexeu a cabeça e respondeu em
português: Estou nesta posição desde 1972, não consigo mexer as pernas.
De repente, formou-se um grande círculo e reclamações de toda ordem
foram ouvidas em diferentes línguas. Todos se entendiam: “Fui paralisada
enquanto caminhava para casa”; “Estou há anos sem tomar banho”, “Não sei
o que foi feito da minha família”, “Nem pudemos entrar em casa, depois
da festa de Iemanjá”; “Quantos anos se passaram? Estou jovem e minha
filha deve estar velha”; “Por que fomos aprisionados?”; “Eu nunca
terminei meu auto-retrato. Temos que fazer alguma coisa”.
Durante a confusão uma moldura caiu. Ingrid levantou-se atordoada.
Estava mesmo precisando descansar, suas pernas pareciam não lhe
pertencer. Apanhou o quadro e, ao colocá-lo de volta, parou perplexa: a
tela não tinha qualquer vestígio de tinta.
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Lourdinha Leite Barbosa
Maria de Lourdes Dias Leite Barbosa nasceu na cidade de Ipu, CE. Mestre
em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Coordena a revista
Espiral. É Presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste
Brasileiro – Secção Ceará. Tem contos, ensaios e artigos publicados em
jornais e revistas especializadas. Participa das antologias O talento
cearense em contos (São Paulo: Maltese, 1996) e Antologia de
contos cearenses (Fortaleza: FUNCET, 2004). Tem editados
Protagonistas de Rachel de Queiroz: caminhos e descaminhos (São Paulo:
Pontes, 1999) e A arte de engolir palavras – contos (Recife: Bagaço,
2001).
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