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Que o amor é um duelo,
o amor entre um homem e uma mulher.
Antonio Carlos Villaça
1º MOVIMENTO: volta
Nas vezes em que ele saía, tudo acontecia do mesmo jeito: aquela
cantilena enfadonha de enganar e ser enganada, nada de novo, a mesma
traição ascética que morre na rotina dos prazeres. Nas vezes em que ele
ficava, tudo parecia um sonho: de repente, o pesadelo de acreditar que o
gozo nunca se liberta da imaginação: mas como acabar com o traiçoeiro
engano? Ele que descubra nas noites mal dormidas, o resto de solidão que
ainda me sobra. Nas vezes em que tudo parecia bem, as mesmas aparências
mudavam de rumo: no trabalho, quanto engano, ele nem pressentia o fim,
cada vez mais morria a última gota do derradeiro beijo: baba que ensaia
vôos dormentes de uma adormecida paixão. Nem sei mais a quem traio – a
própria traição ou a mim mesma. Olhos – tudo e nada mais – sem retorno:
olho, de soslaio: olhos. E quantas vezes o sino tocará a sua morte?
Quando sai ou quando chega, não há diferença alguma, somente passos ao
léu, ventos que balançam o vazio das lembranças. Cadacortina abre-se
para um dia igual aos outros. E ele nem percebe os aflitos enganos que
rondam o quarto onde, de braços e pernas bem abertas, recebo outras
borboletas de asas tão afiadas que desconfio até que não são para mim.
Juras rondam o tempo de não dizer mais nada, sim, ele é, em toda a sua
finitude, a única poeira que inunda minha pele, tanta precisão nessa
seara cega de intensa metamorfose. Há um certo modo de ser na
cotidianidade todas as vezes que o silêncio, lá de sua
mesinha-de-cabeceira, atravessa o vasto território de mediocridades e
ganha um colorido especial; confiantemente, a cidade de abafadas
vontades e intensa boçalidade nada só e ele nem nota: o olhar que para
ele se volta.
2º MOVIMENTO: fica
A vida, sem ela, segue. Por quê? Nem tudo ou quase nada necessita de
porquês, ainda mais quando se trata de separação: ela que siga seu rumo,
o meu já está destroçado, quer dizer, traçado em linhas tão
desalinhadas. Há algo mais deselegante do que um olhar traiçoeiro? Sim,
há: a ressaca de não olhar de frente a traição. Ela que prossiga – no
prumo do avesso, de preferência: de gorjeta em gorjeta, faz-se o mundo
da solidão. Resta, ainda, muito medo entremeado na paixão distante: toda
grande paixão está sempre para lá do horizonte, por isso mesmo, nada
resta dos amores que juntos foram perdendo o viço. Não, ela, na vida,
segue, em outros lençóis, sei lá em que camas ou redes soltas correm
suas taras, a minha não a quer mais por perto, também pudera, em cada
saída, nas muitas vezes em que jurava o que nunca poderia cumprir, e eu
sabia, ela, também. Doce Ângela de endemoninhados pensamentos, ficar é
perder o senso e entrar, de vez, no purgatório das fantasias. Nessa
dilaceração, alheio às vontades do mundo, guardo penumbrosas saudades.
De dentro do ódio, retiro o meu nome, afogueado Antônio, de tantas luas
e de poucos esquecimentos, cada inferno acende uma brasa para a tua
maldição, queria dizer mais diretamente o que só obliquamente me dizias:
vai, segue a picada que mais forte fere a alma: e, ainda assim, não
esqueço, porque esqueceria, se tudo corria contra nós: a mais sagrada
mentira sangrava de tuas mãos e eu sentia imenso prazer em marcar as
horas dos desencontros: sempre ao cair da noite eu me erguia – sonâmbulo
de todas as mentiras: as minhas, as tuas – nossas traiçoeiras promessas
de amores austeros: onde a orfandade de quem ama está, sem enfeites,
perdida no olhar.
DE ÂNGELA PARA ANTÔNIO NO VÍCIO DO DIA QUE CHEGA OU DE ANTÔNIO PARA
ÂNGELA NA FARSA QUE GERMINA
Quanta imaginação no parentesco turvo da noite: os amantes amando se
traem, ainda assim amam em tendas armadas de más-intenções: uma bênção
para a pestilência do engano – salve-se quando puder. Se o tempo assim o
quiser.

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R. Leontino Filho (1961)
Raimundo Leontino Leite Gondim Filho nasceu em Aracati, CE. É poeta,
ficcionista e ensaísta. Doutor em Estudos Literários pela UNESP e
professor de literatura brasileira na Universidade do Estado do Rio
Grande do Norte. Publicou, dentre outros, os livros de poemas: Amor –
Uma Palavra de Consolo (Fortaleza: Ed. do Autor, 1982); Cidade
Íntima (1ª. e 2ª. ed. Mossoró: Queima-Bucha, 1987 e 1991, e 3ª. ed.
São Paulo: Editora do Escritor, 1999); e Sagrações ao Meio (Pau
dos Ferros: Edições i-kara-kati, 1993). Participou de várias antologias,
das quais se destacam: Grito, Logo Existo! Org. Nilto Maciel
(Brasília: Revista Literatura, 1992); Poésie du Brésil – Vol. 1,
org. Aricy Curvello e trad. Haidê Vieira Pigatto (Bento Gonçalves:
Proyecto Cultural Sur/Brasil, 2002); A Poesia Norte-Rio-Grandense no
Século XX (Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998)
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