Disse o Senhor ao jardineiro: me ofereça em altares de porcelana as primeiras rosas da estação. O jardineiro recitava salmos e a chuva tombava em fertilização da terra, se alternando com o sol em fecundação e brotos de uma primavera interior.

A gestação vegetal de polens. Sementes que se intumesciam na incubação das entranhas do chão.

Disse o Senhor ao jardineiro: e com as mais belas palmas uma coroa para cingir minha cabeça. O jardineiro entoava loas ao senhor e ao prenúncio dos pássaros e sua migração em bandos.

Disse o Senhor ao jardineiro: e dos frutos maduros quero as primícias em cestos de palha entrançada por tuas mãos hábeis e ágeis de artesão e servo. Determinarei a época da colheita e ferirei os troncos que sangrarão resinas e bálsamos. A lua indicará o cio da terra.

E colocou querubins de ouro e ciúme nos quatro cantos da herdade, ameaça e cobrança da promessa e seu cumprimento. O decreto entalhado em tábuas de pinho e afixado no centro do sítio, interseção de quatro veredas e nascedouro de ribeiros, o local da casa nos mapas e no sonho do Senhor dos alicerces.

O jardineiro deixou que as primeiras rosas murchassem nos troncos, decadentes de seu esplendor e viço, quando se expunham, exuberantes ao sol e ao reconhecimento dos colibris, em seu vôo indeciso, e das abelhas diligentes.

O jardineiro deixou que as mais belas palmas secassem e tombassem como qualquer folha sem vida e não cingiu a fronte de seu Senhor como símbolo do domínio exercido sobre o território domado.

E os primeiros frutos apodrecidos nos galhos a preenchem a tarde de cheiros adocicados, de matéria em decomposição a fermentar o chão de colheitas inúteis. Natureza coroada e seus próprios troféus, holocausto vegetal de desobediência e rebeldia.

Soube o Senhor acerca destas coisas que se passaram pelo relato dos anjos a delatarem o homem e confirmarem sua condição de eunuco e guardiões da observância das leis e estafetas da delação.

O Senhor saiu a passeio — no fim da tarde — e o jardineiro pressentiu passos e temeu castigo e expulsão, como nas parábolas e nos velhos relatos de crônicas. E o jardineiro estava só, convinha ao Senhor preservar sua solidão e não invejar o coito nas noites de entrega.

“E porque ousaste desobedecer-me e rebelar-te contra a minha autoridade, não ficarás nu, ferirei teus olhos e desencadearei a sombra eterna em tua vida de tédio. E não serás expulso, continuarás capataz deste jardim de trevas. E não amaldiçoarei serpentes mudas que se enroscam nos ramos ou rastejam neste pó que as alimenta”.

Fez-se conforme o Senhor ordenou. Segundo o testemunho de escribas. A tradição oral inscrita e editada.

O jardineiro cego passou a cultivar suas rosas em silêncio. A percorrer em silêncio os canteiros, enquanto a sombra de seu cajado de pastor se projetava nas aléias de folhas murchas.

O jardineiro cego: espantalho entre mudas sempre raras de espécimes novas. Conhecia de cor todas as flores (argúcia de velhas lições de botânica). Ao seu passar se afastam ramos e espinhos. E havia aroma mais intenso — como halo — ao seu derredor.
Seu chapéu de abas largas dispersa as borboletas tontas em seu vôo desordenado de muitas cores. A ele pertencem o jasmim, que adorna o portão de madeira, e o caramanchão, a umidade de flores amarelas.

O jardineiro cego a regar em silêncio o verde em extensões de grama. Batiza por aspersão avencas e samambaias entre domínio de pedras. Parasitas sufocam arbustos e lodo nos espelhos d’água.

O jardineiro cego é senhor deste território circunscrito aos marcos e horizontes de um paraíso de história. Reino vegetal de um soberano a esculpir vasos do barro em que foi modelado.



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Gilmar de Carvalho (1949)
Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho nasceu em Sobral, CE. Professor da Universidade Federal do Ceará. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Autor de Publicidade em Cordel (São Paulo: Maltese, 1994); Madeira Matriz (São Paulo: Annablume, 1999); Patativa do Assaré (Fortaleza: FDR, 2000); Patativa Poeta Pássaro do Assaré (Fortaleza: Omni, 2002), e Desenho Gráfico Popular (São Paulo: IEB/USP, 2000); dentre outros trabalhos acadêmicos. Tem artigos publicados em revistas do Brasil e do exterior. Como ficcionista, publicou Pluralia Tantum (Fortaleza: GRECEL, 1973); Parabélum (Fortaleza: GRECEL, 1977); Queima de Arquivo (Fortaleza: SECULT, 1983); Resto de Munição (Fortaleza: SECULT, 1984): Buick Frenesi (Fortaleza: SECULT, 1985); e Pequenas Histórias de Crueldade (Fortaleza: SECULT, 1987).