Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os primeiros acordes da música. Por um minuto, mais ou menos, permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o homem que a acompanhava. Parecia estar toda concentrada na música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra até que a música parasse. E eu que não prestara atenção naquela mulher, que já começara a comer quando eu me sentara à mesa, fui, de repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada pelos primeiros acordes da música. E o meu olhar se deteve naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos sem conta.

E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes preciso fazer uma revelação. Freqüentava diariamente aquele centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos, desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência por força da minha profissão. Há uma explicação. Eu gostava daquela música e todos os dias ela era tocada, pouco tempo depois que me sentava à mesa reservada para mim. Por um mês, talvez nem isso, solicitei-a ao pianista, mas decorrido esse tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente diário do restaurante, o pianista passou a executá-la com a dispensa do meu pedido.

E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota, ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos. Os dois ouvimos aquela música no mesmo dia em que iniciamos o namoro. Tínhamos ido ao Rex, na matinê dos domingos, assistir a Suplício de Uma Saudade. Hoje não tenho mais saco pra encarar aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos; mas naquela tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às lágrimas quando o filme terminou. Mas, talvez como uma lembrança do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais disposição para vê-lo, continuo a gostar de sua música.

Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa, trechos de Love is a many splendored thing, quando ficávamos juntos num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos encontrávamos: às vezes, assobiando-a. E depois cantando em português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.

Mesmo depois de encerrada a execução de Love Is A Many Splendored Thing, ela permanecera calada, só falando para responder a alguma pergunta do marido. Umas três ou quatro perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa. Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez, ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se do garçom sobre o banheiro e me lembrei da primeira vez que precisei usá-lo. Em vez do usual “Homens” ou “Cavalheiros”, o banheiro masculino daquele restaurante exibe um retrato, numa pequena moldura oval, de um senhor de uma época antiga, vestido com um paletó e usando um grosso bigode. Já no das mulheres há um retrato de uma senhora também de outros tempos e com o mesmo tipo de moldura.

Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a qualquer momento ela virasse o rosto para mim e, dessa vez, me fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi quando um pequenino pássaro surgiu, de forma inesperada, sem ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção de todos que estavam por perto. Até que um garçom se dispôs a apanhá-la, só o conseguindo depois de algum tempo. Os movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas pessoas, inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, de estalo lembrar o de alguma pessoa. Não me era estranho aquele riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecera aquele riso. Foi quando acreditei que ela se virasse para mim, concedendo-me, além do olhar, um sorriso, como alguns presentes o fizeram. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música começou a tocar. Mas a esperança (não dizem?) é a última que morre, e me vali dela para que, ao se levantar para ir embora, a mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo lado oposto ao que me encontrava. Ao se afastar, atrás do marido, pude notar que era um pouco corcunda.


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Francisco Sobreira (1942)
Francisco de Paula Sobreira Bezerra nasceu em Canindé, CE. Contista e romancista, reside em Natal/RN. Mantém o blog www.luzesdacidade.blogspot.com. Publicou, dentre outros, os livros de contos A morte trágica de Alain Delon (Ed. Henriqueta Galeno, Fortaleza, CE, 1972; A noite mágica (Editora Ática, São Paulo, 1979); Não enterrarei os meus mortos (Fundação José Augusto, Natal, 1980); Um dia….os mesmos dias (Fundação José Augusto, Natal, 1983); O tempo está dentro de nós (Edições Clima, Natal, 1989); Grandes amizades (Edições Clima, Natal, 1995); Crônica do amor e do ódio (Offset Gráfica e Editora Ltda., Natal, 1997). Tem publicados ainda romances e detém vários prêmios literários.