O senhor Capitão contava, num intervalo de uma palavra cruzada e outra, que essa profissão de agrimensor era uma das mais perigosas. Em especial se fosse para delimitar as fazendas de dois coronéis verdadeiros, como o Coronel Horácio da Silveira e o Coronel Sinhô Badaró, no Sequeiro Grande, lá no cacau.

— Só com muita bala, meu caro Bibliotecário Djalma, só com muita bala! — dizia o Capitão.

Meu auxiliar de Bibliotecário, o Capitão, gostava muito de contar as muitas histórias da mãe do Coronel. Esta, exemplo — foi só o que me ocorreu quando vi o cabeça grande chamando aquele tímido senhor de agrimensor. Não sei se era deboche. Assim contava o Capitão:

Um dia, um tal Joaquim Lopes resolveu invadir o macaco da mãe do Coronel, isto é, a fazenda dela é que se chamava Macacos.

Ela ajuntou dez cabras, todos armados de soca-soca; vestiu uma calça comprida por debaixo do vestido, num tempo em que mulher alguma andava de calça comprida; montou-se, escanchada, no cavalo Bacalhau, num tempo em que as mulheres só cavalgavam de banda; mandou o Coronel, que ainda era menino, montar-se no jumento Moleque; encheu três alforjes com paçoca, carne-seca e rapadura; quatro borrachas de sola com água da cisterna, e, de tropel, desceram as quebradas da Serra das Matas fazendo um grande alarde de que o tal Joaquim Lopes iria saber o que era bom pra tosse.

Em lá chegando, a mãe do Coronel mandou chamar um cabra que tinha um olho cego, e o apresentou ao invasor:

— Seu Joaquim, este é o meu agrimensor.

Os cabras, com as espingardas entupidas de chumbo miúdo, bucha de capim seco e pólvora até a tampa, ali, quietos, só escutando. O tal Joaquim Lopes, evidentemente, disse que sim.

Eu não sei se o Capitão era um dos que estavam lá, entre os dez das espingardas, ou se ouvira essa “edificante” historinha da boca do Coronel, ou sabe-se lá de quem a ouvira, ou se ele mesmo a inventara. O fato é que a história corria no trecho como autêntica. Então, ali presente o “agrimensor”, a mãe do Coronel apontou para três estacas de sabiá e disse-lhe:

— Faça rumo, compadre Capuxu, entre a Volta do Rio e a Pedra Grande!

— ?

— Enfie a primeira estaca, espie por cima dela bem espiado direto para a Pedra Grande! Mande botar a segunda estaca bem no rumo em que estiver espiando por cima da primeira estaca; em seguida bote a terceira estaca na mesma risca de olho; as três assim, linheiras, bem aprumadas.

— ?

— Aí, compadre, você manda o auxiliar arrancar a estaca que está mais atrás e levá-la lá para a frente, quando então você se muda para a estaca seguinte e ajusta as três outra vez na mesma reta. Depois, recomece tudo de novo e assim por diante. É só ter o cuidado de emparelhar as três estacas sempre na mesma linha! Com cuidado, compadre! Tudo bem linheiro, compadre! Vamos, minha gente! Ligeiro, até terminar! Antes de o sol se pôr! O tal Joaquim Lopes disse:

— Por favor, minha senhora, esse cidadão que a senhora chama de agrimensor só tem um olho. Quem já viu agrimensor de um olho só?

A mãe do Coronel falou:

— O senhor está enganado. Não existe profissão mais adequada para um caolho do que essa de agrimensor! É suficiente que ele olhe com um olho só, e pronto, porque não terá nenhum perigo de se distrair com a outra vista. O perigo, sim, se ele olhasse com os dois, um num rumo, outro noutro.

O tal Capuxu, que jamais havia tirado rumo algum, agora ali, de “agrimensor”, perguntou, quase trêmulo:

— Comadre, qual é mesmo a Pedra Grande?

Ela fez um trejeito com o beiço, apontou para um lajedo que ficava a léguas de onde o Joaquim Lopes queria o traçado, e disse:

— É lá!

O Joaquim Lopes não disse mais nada, nem o marido da mãe do Coronel também disse nada, porque ele mesmo correra do pau há muito tempo, mudando-se desta para melhor no mesmo dia em que o Coronel nasceu, deixando-o no fogo, aquela história do batizado que já contei mais atrás. O Coronel? Ah, o Coronel é quem ajudava, sob o olhar severo da mãe, a carregar as balizas de madeira para o caolho.

Quando o tal Joaquim Lopes vendo que nada haveria de conseguir com aquela mulher tão braba, resolveu ir embora, ela disse:

— Compadre Capuxu, a pedra agora é aquela ali... (muitos graus abaixo da outra.)

O tal Capuxu ganhou um novo apelido: Cambito, que é aquele pau em forma de forquilha que a gente coloca nos jumentos para carregar madeira ou cana, porque o “rumo” que ele fez na fazenda Macacos começava de um jeito, e, como se fosse um cotovelo, terminava de outro completamente diferente, “comendo” pela metade a fazenda do Joaquim Lopes.No final da “agrimensura” do caolho, a mãe do Coronel ainda mandou uns desaforos para o vizinho:

— Da próxima vez, trarei um cego. É muito mais seguro trazer um cego. Só o cego conseguirá ser o agrimensor verdadeiro! Basta colocá-lo no início do caminho, aprumá-lo pelas omoplatas, olhar por cima de cada ombro, e dizer: Vai em frente, cego! Em sendo ele cego, não se distrairá com os passarinhos, nem com as flores do campo, nem com essas molecas que tomam banho seminuas nessas beiras de brejos, um atrevimento. Se alguma cobra o morder, não há de ser nada, visto que todo cego tem pauta com São Bento, o protetor dos mordidos de cobra. Afinal, seria uma injustiça permitir que o cego fosse atacado sem ver a cobra, e ainda morresse da mordida. São Bento não deixa, claro! O cego é que é o verdadeiro agrimensor, capaz de traçar rumos linheiros sem nada a distraí-lo. Da próxima, trarei um!

— Minha senhora, o único que traça rumos certos sem olhá-los, quase sempre por linhas enviesadas, é Ele... o Altíssimo! – disse o padre, pacientemente, Kolbe.

— Louvado seja!



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Soares Feitosa (1944)
Francisco José Soares Feitosa nasceu em Ipu, CE. Chegou adolescente em Fortaleza, onde ingressou no jornalismo, ainda menor de idade, no jornal Gazeta de Notícias. Aposentou-se como Fiscal do Imposto de Renda. Trabalhou no Recife e em Salvador. Até os 50 anos, não se envolveu com Literatura, nada tendo escrito até então. Toca um escritório de advocacia tributária com larga atuação regional. Publicou um único livro, Psi, a Penúltima (Fortaleza: edição do autor, 1997). Mantém na internet o Jornal de Poesia (www.jornaldepoesia.com.br), o mais visitado endereço de poesia de língua portuguesa em toda a rede mundial de computadores. Atualmente escreve um romance, Salomão.