Em torno da pequena mesa redonda, os quatro amigos debruçavam-se sobre o carteado. Já era uma rotina semanal. Jogo sem dinheiro, mas concentrado, de pouca conversa.

A frase saiu do nada, ou melhor, da boca de um deles, mas do nada, se posso me fazer entender.

— Nem tudo que termina tem começo.

Se houve espanto, foi disfarçado, reprimido. Impossível não ter havido. Bastaria a troca de olhares, ainda que rápida, para a revelação do estranhamento.

A partida continuou no mesmo compasso; o ritual de sempre, rigorosamente cumprido.

No final do jogo, apenas uma diferença. Quem ganhou e quem perdeu eram indistinguíveis.

Quem sabe aquela partida nunca teve fim, apenas começo.


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Luiz Arraes (1959)
Luiz Cláudio Arraes de Alencar nasceu em Recife, PE, porém tem raízes cearenses. É médico e professor universitário. Tem publicados os livros: Palavra por palavra (Rio de Janeiro: Inojosa, 1990), Rastejador (Rio de Janeiro: Fundarte, 1991), O desaparecido (Rio de Janeiro: 7Letras, 1997), O que faz um homem rir? (Rio de Janeiro: 7Letras, 1998), O remetente (Rio de Janeiro: 7Letras, 2003), Anotações para um livro de baixo-ajuda (Rio de Janeiro: 7Letras, 2005).