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Ao telefone uma voz de mulher, ferida, trágica, diz que precisa me ver, falar comigo, marca a data e o lugar, não entendo bem o que ela quer de mim, é uma mulher conhecida na cidade, eu a vi algumas vezes, numa festa, num clube, num restaurante talvez, uma mulher elegante, sou jovem e tenho medo das pessoas, quando estou aguando o jardim e vejo se aproximarem os alunos da escola pública eu me escondo no quarto e os observo pela fresta da persiana, ruidosos, alegres, espero que passem todos e só então volto ao gramado, algumas pessoas dizem a minha mãe que deve mudar a filha da escola pública, as escolas de freiras agravam a timidez, ensinando o recato às moças e reprovando a extroversão, Freiras fabricam meninas sonsas, alguém diz, talvez tenha razão, devo escolher uma tarefa semanal no serviço doméstico, e escolho encerar a varanda, de quatro feito um animal, os cabelos soltos, sinto os olhos dos homens passantes e o desejo neles despertados, uma exibição dissimulada, simbólica, provocante, o que deseja de mim a desconhecida que me ligou? movida pela curiosidade compareço ao bar, ela me espera sentada a uma mesa com um sujeito de terno, e me impressiona que esteja vestida com um casaco de pele neste dia de outono, diante de seu casaco de pele sinto-me singela em meu vestidinho caseiro e duas tranças arrematadas por borrachas de amarrar dinheiro, minhas sandálias franciscanas, o sujeito me manda sentar e diz que é advogado dela, ouço-a falar, com as mãos tensas se contorcendo ela me pede que não me aproxime mais do homem que ela ama, e diz o nome dele, depois me ameaça, o advogado dá uns tapinhas carinhosos no pulso da mulher, aconselha que fique mais calma, ela cai num choro soluçante, controla-se, eu não conheço o homem de quem ela está falando, o homem que ela ama, talvez seja um estrangeiro de olhos azuis que perambula nos gramados e de vez em quando senta à sombra de uma árvore e canta canções de sua terra, mas não digo nada, não sei por que, o advogado deixa algum dinheiro sobre a mesa e eles se vão.
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