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Ele sentia uma fome
horrível. Não havia tomado o café da manhã, agora se dava conta disso,
porque acabara voltando a dormir após desligar o despertador, porque
tinha deitado tarde e cansado na noite anterior, porque estava atrasado
com o trabalho e ultimamente era obrigado a invadir as madrugadas para
dar conta dos prazos, e por isso mesmo saíra da cama naquele dia,
atrasado, diretamente à mesa de trabalho, sem tomar o café da manhã, o
que agora se fazia sentir, na fome verdadeiramente horrível que ele
sentia.
Era curioso que toda aquela fome tivesse chegado de um só golpe, como
qualquer coisa que lhe caísse em cima, pesada e implacável, como se
tivesse sido guardada, germinada em silêncio, fermentada durante toda a
manhã em algum lugar de si que ele desconhecia para atingi-lo daquela
forma, já algumas horas passadas do meio-dia, quando esquecida a hora
habitual de comer esquecia também (normalmente, mas não agora), a fome.
Chegara a pensar, agora se dava conta disso, em fazer uma pausa no fim
da manhã para comer alguma fruta ou um iogurteantes de retomar o
trabalho, quando tal idéia foi imediatamente descartada ao lembrar, por
um desses mecanismos mentais que ganham a forma do acaso, que naquele
dia e naquela manhã tinha aquela consulta com o médico, marcada há mais
de um mês na agenda que ele nunca olhava.
Saiu de casa já atrasado e chegou ao consultório ainda mais atrasado
porque enfrentara um engarrafamento no caminho e ficara uma boa meia
hora sem sair do lugar, sem nada poder fazer a não ser esperar,
experimentando todas as estações no rádio do automóvel, ouvindo as
notícias, um rock, um blues, uma ária, um samba, e avançando e parando —
mas nem assim sentiu fome.
Aquela fome horrível e implacável só foi chegar, horrível e
implacavelmente, quando ele estava já dentro do consultório e o médico
lhe falava, o médico tinha finalmente recebido os exames e lhe falava,
mas ele quase não o escutava porque a fome tinha chegado e o consumia e
o fazia pensar somente no que iria comer ao sair dali, e por isso
desejava que o médico terminasse logo de falar para que ele pudesse ir
embora e comer, e de tão apressado que estava já não conseguia lembrar,
agora, se pagara a consulta.
Pensou em entrar no primeiro restaurante que encontrasse mas logo se deu
conta de que, em função da hora, seria difícil achar um aberto, então
decidiu seguir logo para casa, e em seguida concluiu que, pelo tamanho
da fome que sentia, aquela situação era até melhor, pois poderia comer à
vontade, sem se preocupar com boas maneiras ou coisas do tipo, comer
mesmo abusivamente, até saciar por completo aquela fome que lhe parecia
insaciável e que lhe consumia as entranhas, como se fosse um buraco
negro, um poço sem fundo, uma coisa que não tem fim.
Chegou em casa e foi direto à geladeira e começou a comer o que estava à
mão: frutas, legumes, iogurtes; e ao mesmo tempo retirou um grande
pedaço de carne e cortou os bifes enquanto comia o pão que restara do
dia anterior, e meteu o arroz no fogo e fritou os ovos e fritou os bifes
e comeu tudo junto, e então sentiu sede e, mesmo não gostando de beber
durante o almoço, abriu uma garrafa de vinho e bebeu, bebeu enquanto
comia, e foi só enquanto comia, ou quando já havia comido bastante,
quando finalmente sentia que a fome ia aplacando, foi somente aí que ele
pode pensar nisso tudo, pensar que não havia tomado o café da manhã, que
o despertador tocara e ele dormira de novo, que tinha deitado tarde por
causa do trabalho atrasado, e por causa do trabalho atrasado levantou
direto à mesa de trabalho e trabalhou sem parar até lembrar, por acaso,
da consulta marcada com o médico há mais de um mês na agenda que nunca
olhava, e que tivera de sair correndo de casa e que chegara atrasado ao
médico por causa do engarrafamento, e notícias, rock, blues, e que foi
só lá, já dentro do consultório, que começara a sentir aquela fome
horrível e implacável, foi quando o médico apanhou os exames, agora
começava a lembrar vagamente, quando o médico apanhou os exames e
começou a falar, ou fora antes, não sabia ao certo, mas em todo caso foi
mais ou menos ali, quando o médico apanhou os exames, quando apanhou os
exames e começou a falar, começou a falar que a partir dali era uma
outra fase, sim, fora ali, agora ele se dava conta, ali, quando o médico
apanhou os exames e começou a falar da nova fase, que a partir dali era
uma nova fase na sua vida que começava, e agora ele tinha certeza que
fora ali, quando o médico falou da nova fase e que era preciso se
preparar, que era preciso saber que seria duro, sim, agora lembrava que
ao ouvir o termo “duro” já a fome estava instalada, tinha certeza disso,
de ouvir “duro” e já sentir a fome horrível instalada nele, o médico
falou que iria ser “duro” mas que ele ia ser ajudado, eles iriam montar
juntos um plano de ação, e essa foi mais uma expressão que ficara
marcada, que ele só lembrava agora mas que ficara marcada, o médico
falara “plano de ação” e não tratamento, um plano eficaz para frear o
avanço das metástases, porque era bem uma metástase o que o exame
mostrava, e mais do que isso era difícil lembrar, porque a partir de
então a fome se tornara de fato insuportável e todos os seu sentidos
pareciam puxados para aquela fome horrível e implacável, sugados por
ela, consumidos por ela, pela necessidade de comer, comer urgentemente.
Pois só agora, quando a fome ia finalmente se acalmando ele conseguia
lembrar de tudo isso, ao mesmo tempo em que uma leve sonolência ia
tomando conta do seu corpo. Ele sabia que com o vinho no almoço, cansado
como estava, e com o sono atrasado e tendo comido tanto, fatalmente o
sono viria, fatalmente uma sesta seria inevitável, atrasando ainda mais
o seu trabalho.
E não teve nem tempo de trocar de roupa, tirar os sapatos e ir até a
cama. Deitou ali mesmo no sofá da sala, vestido e de sapatos. E dormiu,
instantânea e profundamente, longamente.
Enquanto dentro dos sapatos suas unhas cresciam meio milímetro.

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Amilcar Bettega (1964)
Amilcar Bettega Barbosa nasceu em São Leopoldo, RS. Mestre em literatura
brasileira. Tem publicados os livros de contos O vôo da trapezista
(Porto Alegre: Movimento/IEL, 1994; 2ª ed., Porto Alegre: WS
Editora, 1999); Deixe o quarto como está (São Paulo: Companhia
das Letras, 2000) e Os lados do círculo (São Paulo: Companhia das
Letras, 2004). Participou em 1999 do programa Ledig-House –
Internacional Writers’Colony, nos Estados Unidos, como
escritor-residente. Vencedor em vários prêmios literários, foi o
ganhador do Portugal Telecom, em 2005. Mora atualmente na França.
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