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Sempre
sonhava que estava sobrevoando a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção,
com asas imperceptíveis ao mais comum dos mortais, repousava sempre na
Sé, disputando com os pombos um vitral ainda em cor.
Um olhar aquilino, que sempre saudava o Baobá na Praça dos Mártires e se
encantava com o barulho dos trens a remexer túmulos guardados pela
Castro e Silva.
Os cabelos de trigo ainda beiravam os ombros. Os meninos eram ofuscados
pela beleza alada e, esquecendo as bilas, corriam para a Rua Assunção,
onde poderiam chegar aos telhados a tempo de ver um rosto cor de romã,
guardado por um ligeiro vestido de verão.
Ela sobrevoava o Forte e recolhia o desejo da menina que amava o Pajeú.
O pequeno rio corria indiferente ao amor recolhido. Prometeu para si
mesma que ceifaria a moça no próximo verão.
Já senhora de si, buscava em vão o amor do Freire, o colega de
escritório. O segredo de suas viagens repentinas não seria revelado,
pois voar é para poucos, e a cidade vista de cima parece guardar um
princípio de redenção.
Desafiou os meninos mais uma vez:
-Sigam-me.
Gulliver, o menor de todos, desafiou a gravidade e acabou mal. O Freire
prometeu ficar em vigília nas noites mornas de dezembro.
Depois dela a cidade jamais seria a mesma.
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Aldir Brasil Jr. (1964)
Aldir Chaves Brasil Junior nasceu em Fortaleza, CE. Doutor em Matemática
pela Universidade de São Paulo, é professor da Universidade Federal do
Ceará. Tem poemas e contos publicados no site Fortaleza Voadora, do
escritor e tradutor Ruy Vasconcelos, e na revista Caos Portátil.
Inédito em livro.
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