Os pirex ainda americanos, com finas faixas de relevos em forma de florzinhas ou desenhos geométricos.

A fruteira de alumínio, toda amassada.

Os talheres, comprados um a um — de aço inoxidável —, cada um com seu desenho próprio.

Os pequenos copos de prata, diferentes entre si, presentes de nascimento, de remotos aniversários. (Copos banhados a prata, descobriríamos depois, abalando retroativamente o orgulho que nos proporcionavam.)

Os porta-guardanapos, com o nome gravado, também de “prata”, também antigos presentes.

As xícaras, cada uma de uma cor, cada uma de um jeito diferente.

Cada um de meus irmãos.

A lata de fatia de pão torrado, azul-marinho com desbotadas estrelinhas douradas, ainda visíveis por entre os arranhões e partes ligeiramente enferrujadas.

A digna farinheira de madeira, lisa e redonda, com sua colher de pau, pequena e funda concavidade.

O lugar do pai. O lugar da mãe.

As garrafas d’água da geladeira, de uísque escocês, bebido na casa do tio rico.

A carne algo nervosa. O arroz com tomate, coentro e colorau. O feijão mulatinho.

O leite, o café, o pão.

A coca-cola das grandes ocasiões.

A lata de goiabada Cica ou Peixe.

Agora — o que fazer de tudo isso, essas coisas soltas e desconexas que venho carregando há tanto tempo e com tanto trabalho, equilibrando-as cuidadosamente para que não caiam e quebrem, fonte de tanto cansaço, tanto sofrimento?

Onde estender a toalha velha e manchada em seu quadriculado vermelho?

Onde pôr a mesa e servir o passado num repasto definitivo? Quando será ele comido e engolido de uma vez por todas, deixando-me livre para continuar a jornada sem bagagem desnecessária?

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João Sérgio Siqueira Telles
nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1946. Recém formado em Medicina foi residir em São Paulo, onde exerce clínica psicanalítica. É membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Tem publicados os livros de contos: Mergulhador de Acapulco (Rio de Janeiro: Editora Imago, 1992) e Peixe de Bicicleta (São Carlos: Edufscar, 2002). Possui contos publicados nas antologias: O Talento Cearense em Contos — Org. Joyce Cavalcante (São Paulo: Editora Maltese, 1994), Antologia de Literatura Brasileira — Org. Arne Lundgren (Suécia, 1994) e Brasil — Receitas de Criar e Cozinhar (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998). Também publicou livros de psicanálise.