Na hierarquia da casa me cabia um cantinho, de onde fiquei observando o filete de luz, vindo da janela, que iluminava metade da mesa. Fechei um dos olhos, a mão em pala sobre o outro, vendo a poeira suspensa percorrendo a réstia, que (devido à penumbra da sala de jantar) parecia uma chama na escuridão. Do meu ladinho fui um espectador privilegiado, com direito a cadeira no próprio palco; algo que mesmo a iluminação — a mísera luzinha — não permitia uma visão da platéia. Papai no seu lugar por direito; mamãe na posição mais cômoda para servi-lo. E eu, do meu esconderijo, controlava a respiração: as partículas de poeira ganhando o teto. A irmã mais nova entraria somente no segundo ato, ainda penteava preguiçosa o cabelo enorme.

Sabíamos que o pai logo mais levantaria a mão esquerda num falso movimento de braço, como se fosse olhar o relógio imaginário que na verdade pendia da algibeira. A este movimento levemente imaginado se seguia o olho atento da mãe. Sua mão direita já levava prestimosa a imensa colherada de arroz, o sal fora depositado sobre uma linha reta traçada desde o prato até o canto oposto da sala. Ele avisava com a sobrancelha que em seguida mexeria os dedos numa impaciência. Ela ajeitava o avental que tinha sido repuxado no movimento anterior sobre o prato. Os dedos de meu pai batiam incontinenti seus teclados invisíveis, o feijão em seguida. Um grande osso do corredor esperava sua vez de entrar em cena.

Faltavam três minutos para que eu entrasse no campo de visão dos dois, logo depois que a garrafa de vinho posta no centro da mesa fosse afastada com o antebraço para a lateral vazia a ser ocupada pela caçula.

Aguardava impassível, sabedor de meu caminho. Agora a irmãzinha arrastava pacientemente o chinelão de feltro pelo corredor. Decorava suas preces em quase silêncio. Mamãe nesse instante colocava sobre a mesa o meu prato e o de Camila, que ensaiava sua primeira participação.

Papai batia com seu martelo o osso do corredor. Podia-se improvisar. Nesse minúsculo intervalo mudava-se o cenário. A pequena sentava-se à mesa, segurando as tranças. Eu timidamente lhe arriscava um sorriso. A mãe era só desempenho, o avental novamente ajustado. O pai repartia o tutano, despejava com um gesto grave o vinho nas taças. Baixávamos a vista, lábios entreabertos, em compasso de espera.

Todos os movimentos acoplados, como se os fios dos cordéis fossem magistralmente manipulados por dedos hábeis. O mínimo gesto ensaiado até a exaustão. Sem que se esperasse o próximo número, o sistema de roldanas azeitado em seus múltiplos fios.

E em qualquer tempo nenhuma voz.

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Pedro Rodrigues Salgueiro nasceu em Tamboril, Ceará, em 15 de novembro de 1964, tem editados os livros de contos O Peso do Morto (1ª edição, São Paulo: Ed. Giordano, 1995; 2ª edição, Recife: Ed. Bagaço, 1997), O Espantalho (Fortaleza: Universidade Federal do Ceará/Programa Editorial — Casa de José de Alencar, 1996) e Brincar com Armas (Rio de Janeiro: Ed. Topbooks, 2000/Edição On-line — França: Éditions 00h00.com, 2001). Participa das antologias Talento Cearense em Contos — Org. Joyce Cavalcante (São Paulo: Ed. Maltese, 1996), Geração 90: Manuscritos de Computador — Org. Nélson de Oliveira (São Paulo: Boitempo Editorial, 2001), Antologia de Contos Cearenses — Org. Túlio Monteiro (Fortaleza: Fundação de Cultura, Esporte e Turismo/FUNCET, 2004), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século — Org. Marcelino Freire (São Paulo: Ateliê Editorial, 2004) e Contos Cruéis — Org. Rinaldo de Fernandes (São Paulo: Geração Editorial, 2005).
Recebeu o Prêmio Ceará de Literatura (Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará/SECULT, 1995), o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura (Academia Cearense de Letras, 1997), o Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional para obras em curso (Ministério da Cultura/Instituto Nacional do Livro, 1997), o Prêmio Literário Cidade de Fortaleza (Fundação Cultural de Fortaleza/FUNCET, 1998) e o Prêmio da União Latina/Concurso Guimarães Rosa de Literatura (Radio France Internationale — RFI, 1999).