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Tarde. Uma ilha pequena no
alto-mar. Bem junto à praia, uma casa pintada de branco e um farol
apagado. Uma velha, sentada numa cadeira, segura um pequeno acordeom.
Usa óculos escuros e um vestido azul. Quando não toca, deita a cabeça
sobre o peito. Edmundo, de pé à sua frente, olha o horizonte.
– Mamãe, toque “Lamento do bêbado”.
Como se fosse movida por algum mecanismo que desperta ao comando do
filho, a velha começa a tocar. Edmundo dança sem ritmo, dando pulos na
areia. De vez em quando pára e olha o mar.
– Está bom, está bom! Toque outra música. Não, fique em silêncio. Quero
ouvir algum som diferente.
Não escuto nada. Hoje eles também não vêm. Em vinte e dois anos nunca
chegaram à noite.
Esfriou. Vou buscar seu xale.
Entra na casa e volta trazendo um xale, que coloca sobre os ombros da
mãe.
– Toque “Resignação”. Não, espere, vou buscar uma coisa lá dentro.
Quando retorna, veste uma jaqueta amarrotada e traz uma garrafa de
cachaça. Olha o mar sem novidades, bebendo longos goles da aguardente.
– Agora, toque! Deixe que eu canto. Você depois que envelheceu desafina
demais.
Canta e silencia ao final da música. O corpo, que até arremedara uns
passos de dança, se imobiliza, os olhos fixos no mar. Apenas um braço se
movimenta, levando a garrafa à boca.
– Essa música é minha ou é sua? Não me lembro. Todas as músicas são
suas. Nem adianta brigar por isso. Você é quem escreve as partituras. Eu
não sei escrever uma nota. Nunca soube.
Ri com espalhafato, ignorando a mãe às suas costas.
Sentada na cadeira, a cabeça tombada sobre o peito, ela abraça o pequeno
acordeom.
– Você já pensou quando o navio chegar, se é que vai chegar um dia? Se
descobrirem numa gaveta cinco cadernos de partituras, que diferença faz
se as músicas estiverem assinadas por mim ou por você? Ah, ah, ah! Vamos
estar mortos e esquecidos.
Cai na areia, rolando de tanto rir. Só pára quando a garrafa escapa da
sua mão. Tateia ansioso, até encontrá-la.
– Toque “Uma barca no mar”. Vá, toque! Quem sabe aparece alguma. Vá
tocando sempre. Não ligue pra mim. Esqueça que eu estou nesta ilha.
Submissa às ordens do filho, a velha dedilha as teclas do acordeom, e
arranca melodias que se dispersam no fim de tarde.
– Escureceu. Tenho de acender o farol. Pra quê? Há vinte e dois anos eu
faço a mesma pergunta. Para que eu acendo o farol? Para orientar os
navios perdidos no mar.
Sai ligeiro, movido pela vontade que nunca compreende. O escuro da noite
que começa agora se alterna com o brilho do farol, acendendo e apagando.
– O petróleo está no fim. Se o navio de manutenção não chegar, ficaremos
no escuro e morreremos de fome. Quer comer uma bolacha mofada?
Apanha uma bolacha no bolso e a entrega à mãe. Ela mastiga lentamente,
sem dizer nada.
– Quando aceitei ser o faroleiro desta ilha, não pensei que fosse ficar
tanto tempo. Estava magoado, morto pela metade. Uma ilha deserta deve
ser boa pra curar um coração doente. Eu disse e você riu. Naquele tempo
você ainda enxergava e ouvia.
Cantarola baixinho, sempre olhando o mar.
– Nas primeiras noites que passei aqui, não dormi um minuto. E se nos
esquecessem, quem nos proveria? A ilha é seca. Afora os peixes e a pouca
água que juntamos na cisterna, não nos dá nada.
Tira uma bolacha do bolso.
– Estamos sozinhos, separados do mundo por milhas de água, esperando.
Nosso destino é incerto, mas todos os dias eu tenho de acender um farol
para guiar o destino dos outros. Eles ignoram que existimos. Não sabem
que esse facho de luz é como o pulsar do nosso coração. Veja, acende e
apaga, acende e apaga... O lampejo de luz dura apenas um segundo. O
eclipse demora mais. São três segundos de escuridão, um, dois, três...
Acendeu novamente, um... Apagou...
Mastiga a bolacha e toma goles de aguardente.
– Eu sei que você vai pedir para eu não pensar nessas coisas. E vou
pensar em quê? Eles nunca atrasaram tanto como dessa vez. Toque “Pranto
derramado”. Não, toque “Hoje, que dirás tu?”. Nem sei se quero cantar. A
letra dessa música é horrível. Quem escreveu, foi Eleonora? Desculpe, eu
esqueci que você não gosta de ouvir o nome dela.
A lembrança de Eleonora parece desesperá-lo.
– Eleonora! Eleonora, você não precisava ter escrito esses versos tão
ruins. Eu me levantava sem eles. Agora tenho que ficar de pé, apesar
deles. Ah, ah, ah... Ninguém me escuta. O mar me separa do mundo.
Começa a chorar.
– Eleonora, quando você me disse que estava apaixonada por outro homem
eu morri pela metade. Eu sempre acreditei que era único.
Vai até junto da mãe e olha para ela, desolado.
– Você me fez acreditar que eu tinha todas as perfeições. Que uma
mulher, estando comigo, nunca pensaria noutro homem. No dia que Eleonora
me disse que amava outro, compreendi quem eu era. Senti-me traído por
minha avó, por você, por todas as mulheres.
Corre para junto do mar.
– Toque “Canto cheio de pranto”! Agora é mais fácil. Não tenho de ser o
que sonharam para mim. Cada dia eu ouço menos aquela voz martelando na
minha cabeça...
– Edmundo, você precisa saber...
– Que você não me ama mais? Quem é ele? Me diga! Quero matá-lo.
– Não seja violento!
– Você me destruiu. Vou dar um tiro na cabeça dele. Vou castrá-lo como
se castra um porco.
– Edmundo, uma mulher pode amar dois homens.
– Eu não acredito. O amor é exclusivo.
– Aceite me dividir com outro.
– Não quero.
– Queira!
– Não quero, já disse.
Bebe os últimos goles da aguardente e senta-se na areia. Apesar da
embriaguez, seus gestos revelam uma suavidade que não possuíam antes.
– Quero! Quero transpor essas milhas que me separam do mundo. Eu
preferia ter perdido um braço. O direito, não, o esquerdo. Completo.
Mão, antebraço e braço. Eleonora sempre me achou dramático, primitivo.
Ah, ah, ah... Comigo ela só vibrava em ondas baixas. Com o outro, ela
vibrava alto. Ah, ah, ah... Eu acho que eles se amavam no topo de um
farol. Eleonora! Ele tem um nome horrível. Tenho nojo de pronunciar.
Volta-se, repentinamente, procurando a mãe.
– Mamãe, toque “E o gato comeu” e depois vá se deitar. Saia bem de
mansinho, sem que eu perceba nada. Dormirei aqui na praia. Avistei umas
luzes. É o navio de abastecimento. A terra é mais perto do que se
imagina. A senhora não gostaria de tomar sorvete em taça de cristal?
Toque e vá dormir.
O sol queimou o meu rosto, mas não devo parecer velho. Quando vim para
esta ilha, fiz questão de não trazer espelhos. Mas se o navio se
aproxima, sinto vontade de ver o meu rosto. Como será que ele está?
Grita, para a frente.
– Olá! What’s your name? Ahn...? Estão tomando cerveja gelada e
eu cachaça. Pensam que não tenho mais força? Duvidem! Vão duvidando!
Sempre sonhei ser marinheiro, ter uma tatuagem de águia no peito, e uma
mulher em cada porto... Ou então ser trapezista de circo. Senhoras e
senhores! Respeitável público! A grande atração da noite: Edmundo
Alcoforado no tríplice mortal... Trrrrrrrrrrr... trrrrrrrrr... Ah!
Deu-lhe! Tan, taran, taran, tan, tan, tan, tan... Mamãe, vá deitar-se!
Não escute essas coisas que estou dizendo. Elas sempre me vêm à cabeça
quando avisto o navio. Um brinde, marinheiros, um brinde! Serei o mais
novo embarcadiço. Mamãe, vá dormir, não quero que a senhora me escute.
Se estiver sem sono, fique tocando em seu quarto. As músicas são suas.
Nunca soube escrever uma nota.
A mãe vai embora, sem ser vista por Edmundo.
– O mar se transpõe a nado. Duvidam? Vão à merda! Eu sou capaz de tudo
quando avisto aquelas luzes. Viajo todas as cidades. Desembarco nos
melhores portos. Amanhã o navio vai estar a dois metros de mim. Se
quiser eu transporei a prancha. Vocês duvidam? A senhora duvida, mamãe?
Pois duvide! Um brinde, marinheiros, um brinde! Sou dono do meu destino!
A luz do farol se apaga.
– O petróleo acabou. Estamos no escuro. E agora? Mamãe! Mamãe!
Ouve-se o acordeom ao longe.
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Ronaldo Correia
de Brito nasceu em Saboeiro, Ceará, 1º. de outubro de 1950. Com
cinco anos mudou-se para o Crato e aos dezoito para Recife, onde estudou
medicina e reside até hoje. Teatrólogo e ficcionista.
Teatro para Criança:
— O Baile do Menino Deus
— Bandeira de São João
— O Pavão Misterioso
— Arlequim
Teatro Adulto:
— O Reino Desejado
— Retratos de Mãe
— Malassombro
— Auto das Portas do Céu
— Os Desencantos do Diabo
Filmes para a Televisão:
— Lua Cambará - Longa metragem para a TV Cultura em l977.
— Caboclinhos - Documentário para TV Universitária em l984.
— Brincadeira de Mateus - Documentário para a TV Universitária em l983.
— Cavaleiro Reisado - Documentário para cinema em l973.
— Brincadeira de Reisado - Documentário para cinema em l974.
— Documetário sobre Maracatus - Para a TV BBC, em l992.
Literatura/Ficção:
— Três Histórias na Noite — contos. Prêmio Governo do Estado de
Pernambuco de l989.
— As Noites e os Dias – contos – Editora Bagaço – 1987.
— Faca – contos – Editora Cosac & Naif — 2003.
— O Livro dos Homens - contos - Editora Cosac & Naif — 2005.
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