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Na cama. Morto.
A vida vinha recuando alguns meses, como um lençol que se puxa e se
descobre alguém ao sono.
Era bem assim que dormia, o braço fora da cama, a perna dobrada, o olhar
de lado. Tanto, que a mulher nem o percebera sem vida até sentir a falta
do ruído. O ruído fino, de ar preso, nariz. “Acorda, homem...
acorda...”. Sabe-se que um dos benefícios da morte é tampar os ouvidos e
não deixar que o morto escute o que se passa nas horas seguintes e nem
depois, onde tanto silêncio seria impossível suportar.
Se voltarmos o olhar alguns passos da cena, estaremos no corredor
principal da casa — se é que uma casa tem um corredor principal — e se
dobrarmos à direita logo após a pequena cômoda, entraremos com cuidado
no quarto da filha, que a essas horas arruma a gaveta. Bijuterias.
Cartas. Papéis amassados. Broches. Desde a piora, acompanha a doença do
pai pondo-se a ouvir as sugestões da casa e os resmungos da mãe.
Mas se sairmos agora do quarto da moça, de modo que se possa ver o fim
do corredor, assistimos ao homem com o braço fora da cama e à mulher de
joelhos a se levantar e, rápida, sem antes bater com força a porta,
correr pelo corredor a nos atravessar, passar à sala, à cozinha, ao
jardim, ao portão, para em seguida, voltar ao jardim, à cozinha, à sala,
a nos atravessar novamente e a entrar no quarto da filha assustada.
A menina sentira a presença da mãe como um ausente que retorna sem mais
pra quê. Talvez não haja forma melhor: gaveta de bijuterias, interior da
casa, repicar de contas coloridas. Duas meninas choram.
Quem sabe se nos postarmos por cima de tudo o que se passa aqui, se
formos para o telhado e de lá observamos pelas frestas das telhas apenas
retalhos, talvez tenhamos a visão dos gatos, que dizem enxergam melhor.
Sem dúvida, a fresta restringe o olhar, que se aguça, que se avoluma,
que se infiltra. Veja a mão da menina a afagar a mãe. Os dedos adquirem
os detalhes, cada um com sulcos e pêlos a comunicar tato, que por sua
vez leva outras mensagens para a face também enrugada. Porém por este
ângulo não se ouve bem: o que as duas disseram ali, tão próximas, numa
mistura de choro? Convém retornar.
Jamais entrariam ali. Remexer, colocá-lo numa posição confortável,
vesti-lo com a camisa de botão, enfiar-lhe uma calça, fechar-lhe os
olhos; depois os telefonemas, o carro, arrumá-lo no caixão com os braços
colados, a textura, o cheiro, a moldura, o resto do pai. O que mais
emperrava as duas era a porta.
Deixaram, pois, a morte trancada, a remoer-se, o braço do lado de fora
da cama, até desaparecer por completo da casa.
Deste ângulo, a menina prepara o jantar e a mãe se detém na limpeza dos
copos. Não iniciam uma palavra. E se deixarmos as duas cozinhando em
silêncio e percorrermos a casa com mais cuidado, tateando a parede da
sala, a escrita fica mais úmida, fria, já que uma infiltração toma conta
de boa parte deste lado. Se deitarmos atenção no piso, um taco antigo, e
retirarmos um deles, este, por exemplo, por nossa mão subirão mil
insetos, tão infinitos insetos que apenas eles se enxergam, que apenas a
mão fervilha. Se pelo lado de lá, percorrermos o corredor lateral que
desemboca num quintal ressecado e passarmos o dedo nas quinas e olharmos
em seguida, talvez haja um verde, que por ali pinga uma torneira. E se
formos até o fim e atravessarmos o pequeno portão enferrujado, onde a
menina pendura as roupas, o quintal nos mostrará sua arqueologia de
garrafas e cacos díspares. Aquela capelinha é a casa do motor, onde se
puxa água, onde faz um barulho. Se ainda deixarmos as duas em silêncio
na cozinha, e do quintal atravessarmos a parede final da casa, estaremos
no quarto do casal, que além do morto, com o braço fora da cama, um
guarda-roupa antigo retém um segredo, que não é a morte, mas que da
mesma maneira não podemos enxergar, na penteadeira repousa um pente,
alguns frascos e fios de cabelo, já o espelho reflete o pé do morto e
parte da cama. Se ainda atravessarmos a porta fechada e nos determos
agora com mais atenção no corredor principal da casa, o teto parece
falho, com ar de goteiras, que num dia de mais água certamente
desistirá. Aproveitemos ainda que as duas cozinham e nos apressemos para
o terraço de piso branco, arejado, calmo, os armadores para as redes, as
duas espreguiçadeiras, um quadro falso.
As duas assistem ao noticiário. Na calçada, assistimos aos clarões que
pulsam quando chegam os quadros e a propaganda, e esta senhora que por
aqui passeia também se distrai com a televisão.
Guardar um morto em um quarto requer incômodos. Ter a certeza de que o
pai descansa ali com o braço fora da cama, embora esta lembrança vá se
apagando com o tempo, provoca uma certa ânsia, sem contar com o cheiro
da morte se despregando. Esperar. Esperar a morte desaparecer do quarto.
Viver sem o livro esquecido ao pé da cama.
No quarto da moça, ao passarmos, encostamos à porta. E o choro vem do
banheiro como algo escorrendo. Passemos a observá-lo da fechadura. A
menina maquiada. Batom, olhos no espelho, minha mão tenta reter uma
lágrima. Bem que queria abraçar o pai, contar-lhe algo, não sei o quê do
banheiro.
A mãe no terraço ocupa uma das espreguiçadeiras.
Ventos correm na casa. O morto, que não usa camisa, mas veste um calção
frouxo, de doentes, afunda o colchão com leveza, repuxando para o centro
a colcha, como se a morte fosse roupas limpas e dobradas numa cama. As
duas continuam no terraço. O livro, página 108, uma flor marca a
leitura.
Aproveitemos. Vamos ao outro quarto. Os tacos precisam de troca.
O vaso da pequena cômoda vacila.
Foi apenas um encostar, quebramos o vaso.
“Mãe, a senhora ouviu?”
O vaso espatifou cá nos pés. Quem sabe a menina colocara-o em falso, mas
o falso não é queda, é só talvez. “Também senti algo no banheiro”.
“Também senti um frio no terraço”. Olharam a porta trancada. Sabiam do
braço fora da cama, do pai remoendo a morte até se cansar.
Estamos em cima. Melhor aproveitar que as duas estão recolhendo os
cacos, para nos distrair na cozinha com um gole d’água, para nos
recuperarmos do susto. A cozinha guarda frutas, potes e açúcar. Também
formigas no açúcar. A geladeira bege, cor clara, dentro, o comum das
geladeiras. A menina passa às pressas com um saco de cacos, a mãe
acompanha em seguida. Voltam. Vão ao quintal jogar os vidros.
As meninas dormem agora. A mãe na posição fetal. A filha abraça o feto
como quem abraça um capucho de algodão. Vê-las, sobretudo por este
ângulo: a janela e as persianas. E se abraçarmos a mãe e a filha além
desse leve? Certamente sentiremos o perfume da moça. Tocamos com os
dedos mais nuvens... “Mãe, mãe, é o pai?”. A velha com o braço fora da
cama. “O que foi, filha?... teu pai tá dormindo”. Corremos. O corredor,
a sala, a cozinha, o jardim, a rua, o jardim, a cozinha, de novo a sala,
o corredor, o quarto do morto. O morto na cama, o braço. Ajeitemos o
braço. Assim. Leiamos o livro, página 108: “Então se dissiparão todas as
vãs imaginações, penosas perturbações e supérfluos cuidados”. O
guarda-roupa, antigo segredo que não sabemos bem. O espelho reflete o pé
do morto e parte da cama. O livro na mesma página. Os frascos, o pente,
os fios de cabelo. As duas meninas, a sombra no finzinho da porta, nos
vêem afagando o morto.
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Rodrigo de Albuquerque Marques nasceu em Fortaleza, Ceará, no dia
12 de abril de 1980. Bacharel em Direito e mestre em Literatura
Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Poeta e crítico
literário, também envereda pela “Literatura para infância”, conceito que
pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Letras, tendo publicado um
livro artesanal, A Hora do Cururu, com histórias deste gênero, e ainda
aguardando a publicação do romance Fazendinha.
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