|


 |

 |
1
O imperador me concedeu a graça da vida, mas não me deu a imortalidade.
Esses besouros que se acumulam nas paredes e no armário onde minhas
vestes aguardam o bolor, sabem disso e muitas coisas mais. Este condado
não tem história, firmo meus pés nas nervuras do amanhecer, nuvem
vermelha a desfalecer. Procriei, três ou quatro, homens ou ratos. A foto
ao lado de minha escrivaninha é do imperador. O livro no criado-mudo
também é do imperador. No mundo sub-lunar tudo traz a impressão digital
do imperador. Outro dia, fui acometido por uma gripe, precisei arrancar
as banhas de um sapo, lá também havia a marca do imperador. A alma do
imperador assemelha-se à alma de um jaguar. Ele caça, realiza feitos
memoráveis e trança fábulas maravilhosas. O seu sono é tão pesado quanto
o sol. Anda de um aposento a outro do palácio sem incomodar a noite, ou
qualquer outra região do cosmos. A minha preguiça é o segredo do
imperador. Sua refeição envolve sempre pratos exóticos, aromas
sedutores. O imperador há de nascer um dia. Em que a água escassa da
chuva caia sobre o vidro dos telhados.
2
O imperador tem dois filhos e uma pança invejável. Criadas, tapeçarias
orientais e miraculosos elixires de alcova. Os lençóis do palácio são
todos de sedas. O imperador não sabe o que é o nada e por isso sofre.
Sofre um sofrimento tão sofrido como se sofresse toda a humanidade. O
imperador, definitivamente, não é filósofo. Apenas um idiota seduzido
por toda sorte de regalias e confortos que o seu destino metafísico pode
lhe oferecer. Em sonhos, é um desbravador. Um raptor de mulheres, porém
insensato e infeliz. Tatuado em seu braço está a águia do infortúnio. De
sua nuca escorre o veneno das serpentes. Preso a seu calcanhar
arrasta-se um selvagem escorpião. O imperador desconhece o reino que
criou. Sua fauna, flora e preciosas relíquias lhe são inteiramente
estranhas. Os silos do imperador não armazenam grãos, só olhos, dedos e
cortinas gastas. O fogo do palácio não queima, é tão falso quanto os
seios da imperatriz. A família do imperador é como todas as famílias do
mundo – um desejo de morte, um abutre em extinção – embora à sua
maneira.
3
Como convém a todo imperador, se deixa tocar pelos súditos uma vez ao
ano. No jardim cultiva esperanças, lagartas infantis e húmus. Adora
peixes ornamentais. Sente-se agraciado pela divindade. A natureza para
ele foi feita e dele recebe a beleza, por isso a contempla. Sua vaidade
é a do tigre, sua formosura a do ogro. Quando morrer o imperador ficará
sem lágrimas em suas exéquias. Executar-lhe-ão uma sinfonia frágil, de
ossos quebradiços e sangue ralo. Será o fim de uma era, era uma vez um
imperador. Raiam as primeiras horas do dia, seu corpo se desfaz na
terra, minhas unhas crescem como horas de uma vida nova.
EPÍLOGO
O nome do imperador é volumoso. Sua pele, dizem as concubinas, tem sabor
de torta de palmito. O colchão de seus aposentos é recheado de gorduras
vegetais. A fumaça de seu cachimbo tem a graça de um pássaro em pleno
vôo, da flor ferida entre as pernas arreganhadas da meretriz. Seus
cabelos assanhados lembram o puro linho. Suas ilhas, seu mel, seus
cavalos; assim é a retidão de seus desconhecidos desígnios.
As pernas do imperador estão cansadas. Suas estrelas melancólicas. Assim
passam as luas neste reino fantasmagórico. Onde o vinho a ninguém causa
repulsa. Apenas os loucos de lá partem, assombrados com a vivacidade das
visões. Os cocheiros nos levam a todos os lugares. Os rios nunca secam.
Um único náufrago não levitou à superfície. Dele, dizem o pecado.
Galhos secos, retorcidos, inválidos. Avista-se ao longe, após a
figueira, o marco. Onde as bênçãos se derramam sobre os mortos. O
biógrafo do imperador era calvo e sonâmbulo como uma criança.
Quem me contou esta história foi um encantado, um ser das matas, das
brincadeiras e coisas sérias.
................................................
Nuno Gonçalves
Pereira nasceu em Recife, Pernambuco, em 31 de maio de 1977. Veio
criança para o Ceará, onde reside até hoje. Graduado em História pela
Universidade Estadual do Ceará e mestre em História Social pela
Universidade Federal do Ceará, com a dissertação A escrita da história
na ‘Trilogia da Maldição’: Cantares de um anjo maldito, sobre obras do
escritor José Alcides Pinto. Publicou em 1998 o livro de poesia Cacos de
Cristo, além do primeiro capítulo do romance inédito O canto das onças,
na revista ARRAIA PAJEURBE (Fundação Cultural de Fortaleza/FUNCET,
2002). Tem contos publicados nas revistas PALAVRA EM MUTAÇÃO, ETECÉTERA,
GAZUA, dentre outras. Participou dos grupos alternativos “Parafernália”
e “Peleja da mosca”. Seu conto “Caminho da novena” venceu o Prêmio
Moreira Campos, patrocinado pelo Ideal Clube, em 2003.
 |