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Pé ante pé, mão a roçar a parede, Luís
deixou o quarto, passou pelo corredor e alcançou a ante-sala. Em cada
mão um sapato. Parou, conteve a respiração, desceu o primeiro degrau e o
segundo. Olhou para trás. Tudo calmo. Levou a mão à porta. Nada de
barulho ao retirar a trave. Se Maria ou os filhos acordassem, inventaria
alguma desculpa: esquecera de trancar a porta. E voltaria à rede. Sondou
de novo a retaguarda: a parca luz da lamparina se infiltrava pela brecha
da porta e alumiava uma nesga de chão do corredor. Ninguém tossia nem
roncava. Dormiam sonos profundos, talvez. Retirou, com cautela, a trave
e a pôs no chão, em posição vertical. Se tombasse, todos acordariam. Deu
uma volta à chave, mais uma, retirou-a da fechadura e a colocou num
bolso. Abaixou-se para levantar o ferrolho, voltou à posição normal,
puxou com leveza a tábua da porta, olhou para os dois lados da rua, fez
o movimento contrário na madeira e desceu o degrau para a calçada. Meteu
no bolso a mão, à cata de cigarros. Não, a fumaça inundaria a casa,
pelas brechas da porta. Caminhou a passos largos no rumo da igreja
matriz. Necessitava caminhar muito, cansar, sentir vontade de dormir.
Não suportava mais tantas noites sem sono, a se revirar na rede. Quando
a claridade da aurora se anunciava no telhado, mal agüentava espiar os
punhos da rede, a cabeça a lhe doer, o corpo quente, febril. Embora
assim, carecia se banhar, tomar café, caminhar até a mercearia e passar
mais um dia sem ânimo, nem para as conversas sem fim com os amigos de
sempre. Ao chegar à pracinha, sentou-se num banco. As luzes dos postes
lhe faziam mal. Tossiram numa das casas. Tratou de deixar o banco e se
pôs a caminhar entre as árvores, pelas calçadas internas do logradouro.
Viu-se diante do coreto. Há quanto tempo não o via! Talvez nunca tivesse
passado ao seu interior. Um cachorro dormia debaixo de um banco e se
assustou ao ver aquele guarda-noturno estranho. Fez menção de se erguer
e correr. Luís o tranqüilizou. Ficasse ali mesmo, não lhe ia fazer mal.
O cão mirou os olhos do homem, que deu meia-volta e se retirou.
Nada de confusões, fosse com bichos, fosse com gente. Precisava de
solidão, paz e silêncio. Para onde iria? Talvez para a mercearia. Não,
aquilo não. Os vizinhos acordariam e suspeitariam de arrombamento. Além
do mais, já passava os dias enfurnado entre sacos de arroz e fardos de
algodão. Tomou o rumo da rua paralela àquela pela qual ia e vinha duas
vezes por dia. Na calçada outro cachorro deitado junto à parede. Passou
para o meio da rua. Avistou, ao longe, as torres da matriz. O relógio
indicava 12 horas e 45 minutos. Se encontrasse a porta entreaberta,
ajoelharia diante do altar e rezaria. Talvez não. Há anos não assistia à
missa. Até já o chamavam de ateu. E por que não subir a serra? Apressou
o passo. Sim, rumar pela estradinha escura e depois se meter no mato,
procurar algum riacho, alguma cachoeira. A Lua apareceu atrás do Pico
Alto. Pôde ver com clareza o chão coberto de folhas secas e gravetos. Ia
necessitar de muito fôlego para subir a ladeira. Daquele jeito, fumando
muito, bebendo genebra todo dia, não chegaria longe. Mas precisava
daquilo, os negócios iam mal, os filhos mais velhos só lhe davam
desgostos, Maria não lhe apetecia mais. Há quanto tempo não se
encostavam um no outro? Ela num quarto, ele noutro. Conversavam apenas o
necessário, quando muito. Discutiam por qualquer ninharia. Não se
miravam nunca. Dormir como qualquer outro – impossível. Estacou diante
de uma vereda. Examinou a ribanceira. Chiado de água a escorrer. Apalpou
o chão com os pés e se pôs a descer. Rastejariam serpentes por ali?
Armou-se de um pedaço de pau. Serviria de cajado. Maria teria
despertado? E os filhos pequenos? Quando acordassem e o não vissem...
Não, nunca o viam ao amanhecer. Ainda dormiam quando saía para
trabalhar. Mesmo assim, prometia voltar antes de o sol raiar. Sentou-se
ao pé de uma rocha. Açoitou o chão com o galho seco. Nada de bichos por
perto. Olhou para o alto. A Lua vagava entre nuvens. Acendeu um cigarro.
Bater de asas ao seu derredor. Pios de protesto. Jogou fora a ponta
acesa e a esmagou com o pé. Deitou-se e se pôs a admirar a Lua, como há
muito não fazia. São Jorge num cavalo enfrentava um dragão. Nuvem enorme
encobriu soldado e animais. Luís fechou os olhos. Aquela peleja não
acabava nunca. Ou não passava de pintura, paisagem celeste? Rodavam no
espaço desde o início. E rodariam até o fim.
Quando abriu os olhos, uma nesga de sol se filtrava entre as telhas do
quarto. Estremeceu na rede e viu Maria a fugir feito fantasma, de volta
ao outro quarto. Já voltei da serra?
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Nilto Fernandes Maciel nasceu em Baturité, Ceará, em 30 de
janeiro de 1945. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
Criou, em 1976, com outros escritores, a revista O Saco. Edita a revista
Literatura desde 1991.
Ganhou alguns prêmios literários: “Brasília de Literatura”, 1990,
categoria romance nacional, promovido pelo Governo
do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”,
1992/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de
Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo; “Cruz e Sousa”, 1996, categoria
romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina,
com A Rosa Gótica; “Bolsa Brasília de Produção Literária”, 1998,
categoria conto, com Pescoço de Girafa na Poeira; "Eça de Queiroz",
1999, categoria novela, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro,
com Vasto Abismo.
Livros publicados:
Itinerário, contos, 1.ª ed. 1974, 2.ª ed. 1990, João Scortecci Editora,
São Paulo, SP; Tempos de Mula Preta, contos, 1.ª ed. 1981, Secretaria da
Cultura do Ceará; 2.ª ed. 2000, Papel Virtual Editora, Rio de Janeiro,
RJ; A Guerra da Donzela, novela, l.ª ed. 1982, 2.ª ed. 1984, 3.ªed.
1985, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, RS; Punhalzinho Cravado de
Ódio, contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará; Estaca Zero,
romance, 1987, Edicon, São Paulo, SP; Os Guerreiros de Monte-Mor,
romance, 1988, Editora Contexto, São Paulo, SP; O Cabra que Virou Bode,
romance, 1.ª ed. 1991, 2.ª ed. 1992, 3.ª ed. 1995, 4.ª ed. 1996, Editora
Atual, São Paulo, SP; As Insolentes Patas do Cão, contos, 1991, João
Scortecci Editora, São Paulo, SP; Os Varões de Palma, romance, 1994,
Editora Códice, Brasília; Navegador, poemas, 1996, Editora Códice,
Brasília; Babel, contos, 1997, Editora Códice, Brasília; A Rosa Gótica,
romance, 1.ª ed. 1997, Fundação Catarinense de Cultura, Florianópolis,
SC (Prêmio Cruz e Sousa, 1996), 2.ª ed. 2002, Thesaurus Editora,
Brasília, DF; Vasto Abismo, novelas, 1998, Ed. Códice, Brasília; Pescoço
de Girafa na Poeira, contos, 1999, Secretaria de Cultura do Distrito
Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, Brasília; A Última Noite de
Helena, romance, 2003. Editora Komedi, Campinas, SP.
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