|


 |


|
“Eu
quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia.”·
(ÁLVARO DE CAMPOS)
Atmosfera comprimida, cidade abatida sob densa garoa. O mês de agosto
desfila seus infortúnios através de pequenos acidentes disfarçados. As
garrafas expostas nas prateleiras do bar transformam-se em oráculos para
regozijo dos ossos. Uma disputa de crianças na base da pedrada, crianças
em fase de barulho quase adolescentes. As pedras são atiradas entre
gritos de guerra, pequenos insultos, trocadilhos mesclados de inocência
e de vez em quando algumas expressões vulgares. Os carros passam na
avenida, pontos luminosos na umidade distante. As pedras zunem pelo ar.
O modo como as crianças riem é como se o brinquedo reservasse uma
conotação de flerte com uma ponta de crueldade. A cada pedrada os risos
e os insultos são dirigidos com a mesma intensidade do projétil. A garoa
matraqueia no teclado dos telhados e serpenteia na desolação das ruas
circunvizinhas. Um dos garotos abandona a linha de ataque e corre em
direção à mercearia imitando a onomatopéia de um personagem de desenho
animado. O carro do lixo passa em ritmo de tartaruga mastigando latas e
devorando os vestígios e miasmas do cotidiano. O garoto sai da mercearia
abraçado com um vasilhame grande da “lama negra do capitalismo” e vai
abastecer a sede dos seus companheiros. Um deles levanta alto o
vasilhame como se fosse um amuleto a vencer a contenda. Um casal
mistura-se num abraço embaixo de um toldo que proteja uma sombra contra
as suas faces. Dentro da mercearia, as pessoas olham-se nos olhos como
se compartilhassem de uma cumplicidade desesperante entre conversas
banais e vazias de álcool. A batalha continua acirrada. As pedras
retinem no poste com um baque surdo e, vez por outra, ameaçador. Um dos
grupos perde terreno e é obrigado a recuar até um canto de muro para
usá-lo como escudo. Um cão late oculto em algum quintal, quem sabe
enviando uma mensagem aos outros cães ao redor para afastarem-se da
linha de fogo. A resposta à sua mensagem é o lamento brusco de um freio
de automóvel ao longe. No interior da mercearia há pôsteres de mulheres
nuas, que embalam o onanismo mental dos celerados, ao celebrarem suas
alegrias e tristezas ao som da bravata de copos tilintando e chapinhas
de cerveja sendo retiradas energicamente. A garoa persiste, sendo
cortada pelo barulho e a inevitabilidade das pedras. Ao fundo da
mercearia, um casal sentado em silêncio como se a umidade do ar
desfizesse qualquer pensamento a nível oral. Em estado alterado de
narcose, um rapaz observa o itinerário das pedras até elas perderem-se
pelo chão. A TV rosna um comercial através de uma janela, enquanto
sapatos rangem pelas calçadas à procura de abrigo. A meninada continua
espantando o tédio na base da pedrada. Algumas pedras cruzam o ar e
rolam escondendo-se em frestas mal iluminadas. Porém outras não têm a
mesma sorte, continuam por repetidas vezes cortando o ar até sumirem em
outra rota. O ar infesta-se do cheiro úmido de areia e água de mar, e
mistura-se aos sacos plásticos e outros materiais. Lixo impossível de
destruir a memória da passagem humana pelo cosmo. Matéria que ficará
indo e vindo até encalhar de acordo com o fluxo da maré. A alegria de
estar com alguém tem a mesma semelhança do tiro rápido de uma pedra: o
coração e corpo da pessoa às vezes estão tão próximos, mas num piscar de
olhos afastam-se como um rápido impacto. A batalha primitiva continua no
seu apogeu. Às vezes dá vontade de correr pelo meio da pedraria e sentir
o impacto nas partes mais diferentes do corpo. A vadiagem habitual dos
gatos é ceifada pela impertinência do clima. O horizonte sobre os
telhados desnorteia os brilhos semi-noturnos com lufadas imponentes de
vento nas folhas das árvores. As luzes pesam e embaçam sob o peso de
atmosfera. A corja de criança enfrenta-se com maior ousadia, pedradas
certeiras e perigosas. Alguém lança uma bagana de cigarro da porta da
mercearia que faz uma curva tal qual um pirilampo abatido. O barulho de
uma motocicleta altera um pouco a monotonia que se sucede quando as
crianças dão uma trégua para tomarem um pouco mais de refrigerante. A
tarde esvai-se no doce refrigerante delas, e em várias tentativas de
embriagues aqui dentro da mercearia. A bolha de chiclete explode no
exato momento em que um dos meninos atira uma pedra pra valer. A
resposta do outro lado é imediata. A contenda toma proporções enervantes
numa troca seqüenciada de tiros que rolam, batem, deslocam-se, se
espatifam e zunem mais rápidas pelo ar. Meu coração vai aumentando suas
batidas de acordo com o ritmo da pedraria. A pedra atirada com maior
força cruza em um ângulo maior com outras, enquanto acompanho-a até
perdê-la de vista. No seu curso, nada a impede de espatifar o vidro de
uma janela. Algumas crianças espalham-se amedrontadas, outras disfarçam
suas danações em brincadeiras mais sutis. Uma porta se abre e dela surge
uma velha com um cachorro ao colo, vociferando sua indignação contra a
molecada ao redor. De repente sua expressão misturada à atmosfera pesada
é atingida por uma pedrada. Seu rosto abre-se num talho entre os olhos e
a boca. O sangue esguicha para todo lado e pinga na calçada
misturando-se à umidade da garoa. Nesse instante, alguém anonimamente
pressiona uma tecla e um rock pesado derrama faíscas sobre as cenas
deflagradas.
................................................
Luís Marcus
da Silva nasceu
em Fortaleza, Ceará, a 16 de outubro de 1964. Ficcionista, tem textos
publicados em fanzines e suplementos alternativos. É membro do grupo
literário Academia da Incerteza. É inédito em livros.
 |