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Olho aberto, gritam os patriarcas.
Não poderiam se descuidar da estrada; também preocupavam-se com as
crianças, impacientes o necessário para se tornarem presas fáceis. Da
última vez encontraram apenas ossos espalhados sobre o terreno.
Antes mesmo de o orvalho se despedir das folhas, homens se armam de
pedras, pedaços de madeira e outros objetos que possam ser atirados à
distância. Armas de fogo seriam inúteis: os animais podem se assustar e
a menor imprudência será um desastre.
A fumaça vinda das fogueiras e chaminés esconde a ponte, e a cerração
fecha o anoitecer.
— Botem sentido...
Do pequeno morro, cadeiras, bancos e o chão servem de miradouro; algumas
pessoas preferem montar guarda próximo à ponte de onde têm uma larga
visão do horizonte, evitando, também, maior aproximação da fazenda do
coronel Galdêncio, que expulsa a tiros quem ousa desobedecê-lo.
— A dor ensina...
Não cochilavam em serviço, e quando alguém desiste do posto, indo rumo
ao sul ou para o cemitério, seus netos ou parentes mais próximos não
deixam descansar os cuidados. Antes mesmo de aprenderem os seus nomes as
crianças nutrem raiva e medo pelo bico de ferro.
— Urubu quando canta, não chove...
Aqueles que não possuem animais, e até se beneficiam quando antes das
formigas e urubus encontram carne fresca, torcem pelo ‘inimigo’.
—Quem não pode com o pote...
Ao apito da máquina: gritaram pelas crianças e atiraram pedras como se
fossem seus últimos atos em vida... Seguiu-se uma cortina de fumaça que
sumiu a esmo; agora, apenas os trilhos paralelos cruzam o horizonte...
Aliviaram os gestos e começaram outro inventário.
...
No dia seguinte, como acontecia desde que foi instalada a ferrovia,
iniciam a espera...
— Olho aberto – murmuram alguns fantasmas...
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Luciano Gutembergue Bonfim nasceu em Crateús, Ceará, aos 27 dias
do mês de dezembro de 1971. É graduado em Pedagogia pela Universidade
Estadual do Ceará e professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú.
Publicou: Janeiros Sentimentos Poéticos — Poesias (Crateús: Ed. do
Autor, 1992) e Dançando com sapatos que incomodam (Sobral: Ed. do Autor,
2002). Tem conto no Almanaque de Contos Cearenses — Org. Pedro Salgueiro
(Recife: Ed. Bagaço, 1997). Escreveu para o teatro: As mulheres cegas
(premiado no Festival do Teatro Amador de Acopiara-CE/2000) e Auto do
Menino Encantado.
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