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...novos seres diferentes, seres de conjunção. Podem: duas carruagens se
cruzam em uma rua do Rio de Janeiro quase no final do século XIX;
trespassáveis, uma mais veloz passa por dentro. Pois então surge um ser
redondo, cabeça sol cinzento flexível, olhos de água e borracha, restos
de nuvens na boca ou basta. Poeira de longínquo povoado saindo-lhe dos
lados; cabeleira não-vista de cabelos rápidos, menos que a antipedra de
um segundo. Empenas. Cotovelos de metal sombrio, profundos.
P.86... seres se moviam, quebra-luzes. Mesclas...as.
Vê, longe? Na altura, no oriente da vidraça? Fecham as praças. Zonas
interditas. Áreas segregadas de chuvas demoradas. Ele passa. Eis que
habita. Sabe-se que: movem-se as louças, para as carruagens seguirem os
rastros de outras carruagens. Estamos quase nos exaurindo seguindo suas
marcas. É preciso que ele surja, novo e bom, o Ão, o levantador de
poeira nas estradas abandonadas, agora nas ruas de pavimento quente.
Aqui depois. Só adianta isso: flagre a passagem do gigante Mazote. São
trezentas partes pessoas. Dentro vai e um sino que bimbalha, um calor
tem de vidro imenso o som amarelo do âmbar, por toda a cidade zonas de
sono e lampiões. Deu-se que vinha mais lento, vi-lhe o invento de um pé,
uma fímbria de nesga, rastro de peixe-suor transparente
transbordando-se, símbolos brancos de hélice, intensidades de água
difratada, fios oscilando...
Abarcações. Começa-se aos poucos, sem mar o rumor, desmonta-se,
como-se-in-do, vai sabendo-se no invento, separando-se todas as coisas e
s e r e s l e t r a s que o compõem, sobrepujando-se, uma ponte fina de
brisa dobrando-se entre dois vultos e três vogais numa esquina, um poste
curvo e uma surdina de pessoa, coisa aumentada e nervosa...
esquivando-se Vozes e sombras velozes muitas empilhadas em gozo de
confusão. Rebimbalham. Bimbaralham. Trevas delicadamente lentas,
procissões de ondulações para nunca serem vistas. Veja! Faça como eu,
levante a persiana, observe-se essa coisa amarela e rápida e está longe.
Filme-vapor de nuvens. Escute-se sua tranca-passagem. Ruas interditadas.
Movimentos desconhecidos. Não se passa. Tempestades aprisionadas em
grandes campos nos subúrbios. Enormes mangueiras brancas saem de dentro
das janelas. Trombas. Cavilação e vácuo. Passos muito atrapalhados
ouvem-se, como tábuas em ritmos de detritos. 1870 dispara. Montanhas são
rastreadas. Couraçados de bronze muito imóveis. Ameaçadores comícios sem
um som. Esculpe-se uma audição ali, aquela gente toda empilhada em
equívocas aéreas juntas de gozo. Dizem que são 3002. Entrelaçamentos de
coisas invisíveis e pessoas desviadas nas calçadas. Não sei: parece que
falta um dos hiatos quando fogem os cavalos. Abandonam. Ou. Ave, se um
grito enviado dos telhados. O ser organiza-se esperando em grandes
pistas aplainadas mais afastados da cidade. Virá encoberto num túnel
desencoberto. Ninguém o saberá num Tonel. Enorme isolado na planície de
fronteira entre o aqui e o antes. O que é líquido dele não se pode
sonhar. Aí então começará o seu primeiro trecho estruturado por tropéis
e neblinas num galpão afastado de uma fábrica situada no horizonte
oscilavelmente por distâncias faiscadas de uma árvore. Logo, após, as
obras: outros, trens, bondes elétricos. Clareiras de vácuo entre as
multidões. Pedreiras reinexploradas. O ser se muda. Outra. Você precisa
ver o que estou vendo. Vez. Você precisa levantar da cama e ver por
entre as dobras da persiana os ouros, os afastamentos. Evitará os
incêndios... o ser bosqueja.
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Carlos Emílio Corrêa Lima nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1956.
Foi um dos fundadores da revista O SACO Cultural, em 1976. Publicou o
livro de contos Ofos (Fortaleza: Ed. Nação Cariri, 1984); os romances A
Cachoeira das Eras (São Paulo: Ed. Moderna, 1979), Além, Jericoacoara (O
Observador da Litoral) (Fortaleza: Ed. Secretaria de Cultura do Estado
do Ceará, 1982) e Pedaços da História mais Longe (Rio de Janeiro: Ed.
Impressões do Brasil, 1997); e o livro de ensaio Virgílio Varzea: os
olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (Fortaleza/Florianópolis:
Edições UFC/FCSC, 2003), que foi sua tese de mestrado em literatura
brasileira, na Universidade Federal do Ceará.
Tem inéditos os livros: Culinária Venusiana (poesia); Teatro Submarino
(pequenas peças teatrais) e O Segundo Livro de Ofos (contos).
Participa das antologias: Queda de Braço: uma antologia do conto
marginal (Rio de Janeiro: Club dos Amigos do Marsaninho, 1977) e Uma
Antologia do Conto Fantástico, org. Bráulio Tavares (Rio de Janeiro:
Casa da Palavra, 2003). Recentemente criou a revista Arraia Pajeurbe
(Fundação Cultural de Fortaleza-FUNCET) e as Rodas de Poesias, recitais
no Centro Cultural Dragão do Mar.
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