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Alegría
Del estupendo grito
De la tristeza loca
Serena,
Como la rabia de amar
Alegría
Como un asalto de felicidad
( Dragone-Tadros-Messe /Dupéré)
Eu subia os degraus chumbados na parede do centro esportivo, alcançava o
telhado, avançava mais e ficava sobre a caixa d’água esperando por ela.
O bairro dali tão outro, as pessoas tão macias. Poderia até deixar-me
cair (Nada a ver com os punhais de cabos fincados no barro endurecido
que imaginava em dias de nóia). O céu azul. Poderia até abrir os braços,
não fosse ridículo, um junkie brincando de gaivota, não fosse arriscado
expor o mocó e nunca mais poder voltar ali, afinal o que mais a cidade
tinha a oferecer? Até outras coisas, certo, entretanto, nada, nada como
aquele lugar. As autoridades, os homens ficam pensando em mil coisas
sobre o que fazer com a cidade, mesmo que não façam, dizem que querem
fazer e isso já é suficiente para começar a mudar, muitas vezes para
pior, um lugar. Os homens não percebem que às vezes não deveriam fazer
nada, que devem existir espaços na cidade onde não se intervêm, lugares
baldios mesmo, onde movimentos subterrâneos podem eclodir. Sei, você
quer que eu fale sobre o maior amor da minha vida e estou me desviando.
É que as cidades foram outra paixão.
Também procurava por ela na lojinha de vinis. Talvez estivesse por lá
com sua garrafinha de água mineral. Para todo lado eu dava de cara com
gente séria, os braços se agitando num vai-vem, as direções mudando
subitamente, subindo elevadores, abrindo, fechando portas, seguindo em
calçadas estreitas, e eu chapado no meio do burburinho, meus pés
batendo, os ombros, os quadris respondendo a um ritmo que vinha sabe
Deus de onde, uma melodia que catava uma ou outra cena, o casal de
namorados, a criança subindo para os braços do pai, a tarde azulando, a
luz no carro de pipoca, e, na improvável cidade, o rosto cansado de um,
uma gotícula deslizando sobre a pele, deixando em rastro uma ruga,
delicada gavinha.
Qual dessas lembranças será verdadeira? Vez por outra alguém me corrige,
não foi bem assim, esse não era você, esse era o Gera, não foi o Pavão,
foi você que desceu a parede da loja feito uma lagartixa, foi você que
invadiu, alta madrugada, depois dos ácidos, a escola de natação e ficou
dançando feito índio. O Frankenstein que me chega, memória recomposta,
pode ser débil e frágil, mas ainda assim me serve e revisto-me dele como
se não houvesse outra opção.
Eu desistia de encontrá-la e ia para lugar nenhum, para a galeria do
rock, para os supermercados beber uísque e comer chocolate longe das
câmeras, não fazer nada, tentar segurar o tempo, colocar-lhe arreios e
meu corpo como carroça. Cavaleiro triste, o homem, quase de pé, como seu
chicote girando sobre a cabeça, ameaçando e abrindo os pulmões, ridícula
grandiloqüente silhueta estalando contra o céu avermelhado. A montaria,
quando subjugada, segue lenta, sem sobressaltos, deixando o cavaleiro
até dormir, tranqüilo pelo trote suave, pela certeza de que a noite
persegue o dia e o dia persegue a noite, pelo menos até os olhos se
abrirem e perceberem a lonjura do lugar nenhum onde se meteu.
Estar só não me impedia, nunca me impediu de andar por aí. As viagens
mais importantes se fazem só. Vez por outra eu ia a algum cemitério como
quem vai a outra cidade. Não que lá o mundo transpirasse, mas podia
caminhar lento por aquelas ruas, ouvir vozes tremulando em línguas de
velas e nem por isso sentia-me mais ou menos insano. Como quem joga
milhos para os pombos, os mortos atiravam-me lembranças: o equilibrista
que em uma noite planejou escorregar o pé sobre a corda, assim sem
mais... O homem que se aposentou e foi ser barbeiro de bairro, cheirando
a lavanda e a talco, com a serenidade que nunca pensou ter... Bastava
seguir pelas alamedas, se não quisesse ouvir as vozes calavam, acho que
calavam, não lembro bem.
Procurava por ela nas escadarias do teatro, pedia empanadas no D. Diego,
provava uma de escarola quase a vendo pelo espelho sentada ao meu lado,
e andava, andava a ermo, passava pela biblioteca municipal, mergulhava
durante uma ou duas horas em algum livro e voltava às calça das. Até o
chuvisco era uma desculpa para ir adiante, como se um policial de filme
desse o comando “circulando, circulando!”. Esta inquietação levou-me aos
ensaios de escolas de samba, às casas de forrós, às gafieiras, a todo
lugar onde pudesse atravessar a noite como um tanque atravessa uma
cidade rendida.
Por que ela sumiu? Como uma papoula vermelha desaparece na mão de um
mágico e surge atrás da orelha? Truque. Um dia, décadas depois, ela
irrompeu sala adentro, os bicos dos seios já não eram mimosos, mas ainda
não conheciam sutiã, falava, desengavetava fatos, as viagens de carona,
a exposição em Paris na Casa do Brasil, a temporada no Haiti, o primeiro
casamento, os Médicos Sem Fronteiras em Ruanda, os filhos em Lyon, o
amante das sextas, o milimétrico e renitente melanoma, os exilados de
Ruanda, la vie avec Ian, a casa de tijolos vermelhos e cornijas azuis. A
boca não parava, os seios já não eram meus, seguia-lhe um véu com cheiro
de leite e um cortejo de crianças e vizinhos, até que, subitamente,
desapareceram todos atrás de uma porta. Quando olhei, só
uma Flor
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Júlio César Fernandes Lira nasceu em Fortaleza, Ceará, em 28 de
novembro de 1959. Educador e Bacharel em Ciências Sociais pela
Universidade de Fortaleza. Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, da
Secretaria de Cultura de Sobral, em 2002, e Prêmio Literário Cidade de
Fortaleza, da Fundação Cultural de Fortaleza, em 2003.
Livros publicados:
— A História inacabada de Maria Rapunzel (Fortaleza: Fundação Demóclito
Rocha, 2002).
— Graciano (Fortaleza: Fundação Demóclito Rocha, 2003).
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