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O
desperdício. O excesso.
Como vidro, bebo fogo, atravesso as paredes. Escalo os píncaros.
De noite, o canto dos galos. Pneus rangendo no asfalto. A chuva que
molha a lua. E a procissão dos ciganos, perambulando pela cidade, lendo
as mãos das estátuas e das árvores. Raízes amargas me espreitando, o
olhar malévolo na minha nuca. A revolução do subsolo.
Se me olho no espelho, só vejo os limites do abismo. Que resfolega, fera
insaciável, guloso de carnes. Nuvens e antúrios se acumulam, enchem as
praças e as ruas, afogam a cidade num delírio de cores impossíveis.
Acúmulo de sons. Trovões que reboam. Dentro do banheiro, o dueto
silencioso dos canos e dos fios. E, lentamente, imperceptível,
pré-histórico, irreal, subindo, crescendo, aumentando o seu nível, o
Mar, que já lambe os porões da casa e salpica as escadas do corredor.
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José Dimas de Carvalho Muniz nasceu em Acaraú, Ceará, aos 28 de
janeiro de 1964. Licenciado em Letras pela Universidade Federal do
Ceará. Professor de Teoria da Literatura na UVA — Universidade Vale do
Acaraú, publicou os seguintes livros: Poemas —1988, Frauta, Ruda,
Agreste Avena —1993, Itinerário do Reino da Barra —1993, Nicodemos
Araújo, Poeta e Historiador (em parceria) — 1995, Mínimo Plural — 1998,
Histórias de Zoologia Humana — 2000, Fábulas Perversas — 2003 e
Marquipélago — 2004. Conquistou os Prêmios Literários: Cidade do Recife
(1996 e 2002), Ideal Clube (2001 e 2003), Cidade de Fortaleza (2000 e
2003), dentre outros.
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