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Tremeu ao ouvir o checo
checo das sandálias. Sabia que vinha bufando só pela força do pé, no que
resmungou algo incompreensível. Problema nenhum. Ranzinzas não merecem
pedidos de reprises. Mas ela não esperava gentileza alguma para ser
compreendida. Repetiu de imediato percebendo a cara de dúvida do
moleque. Pensei que teria um pouco mais da vida! Ótimo, demorara para
trazer suas desagradáveis e desnecessárias frases do dia. Ele até quis
saber se não era tanto, bem mais que esperava. Desbocado! E logo soltou
uma gargalhada que lembrou as bruxas do filme chato reprisado na tevê, à
tarde. Deboche. Como se dirigisse o lamento a algo ou alguém. Onde?
Quem? Ele não achava. Sabia apenas que olhava a parede, enquanto abria
uma lata de cerveja. Inclinou a barriga grande de lado e tornou a dizer
coisas difíceis, estranhas. Sem saber, mas eram sórdidas. Supunha,
absoluto. Enfiou os dedos nos ouvidos por um tempo, enquanto a gorda
gesticulava sozinha, muda, engraçada. Catou musiquinhas na cabeça,
encontrando aquela do soninho sossegado. Começou a rir. Parecia que
pronunciava cada pedaço da canção, logo descompassados pela cara feia ao
ver tanto sorriso. Longe de deboche. Mas ele perguntou, encucado, o que
ela esperava e não ganhara. Jogou a lata para o alto, calada, e virou
demorada, de costas. Um dia tu entende, pivete! Não, ele não queria
saber. Queria puxar papo. E aprendeu que, todo dia, antes de ela dormir,
podia tapar os ouvidos e olhar suas reclamações cantadas como ciranda,
andoleta ou lagarta pintada. Só quando já roncava, que podia pensar no
que teria sido negado: o amor do pai, o emprego, o fiado da venda, a
vasilha do bolo quebrada... Enumerava como quem conta carneirinhos. E
nunca mais o checo checo significou ameaça. Os ouvidos desligados, em
atenção ao que tocava dentro. E a vida sempre deu de muito. |