Tremeu ao ouvir o checo checo das sandálias. Sabia que vinha bufando só pela força do pé, no que resmungou algo incompreensível. Problema nenhum. Ranzinzas não merecem pedidos de reprises. Mas ela não esperava gentileza alguma para ser compreendida. Repetiu de imediato percebendo a cara de dúvida do moleque. Pensei que teria um pouco mais da vida! Ótimo, demorara para trazer suas desagradáveis e desnecessárias frases do dia. Ele até quis saber se não era tanto, bem mais que esperava. Desbocado! E logo soltou uma gargalhada que lembrou as bruxas do filme chato reprisado na tevê, à tarde. Deboche. Como se dirigisse o lamento a algo ou alguém. Onde? Quem? Ele não achava. Sabia apenas que olhava a parede, enquanto abria uma lata de cerveja. Inclinou a barriga grande de lado e tornou a dizer coisas difíceis, estranhas. Sem saber, mas eram sórdidas. Supunha, absoluto. Enfiou os dedos nos ouvidos por um tempo, enquanto a gorda gesticulava sozinha, muda, engraçada. Catou musiquinhas na cabeça, encontrando aquela do soninho sossegado. Começou a rir. Parecia que pronunciava cada pedaço da canção, logo descompassados pela cara feia ao ver tanto sorriso. Longe de deboche. Mas ele perguntou, encucado, o que ela esperava e não ganhara. Jogou a lata para o alto, calada, e virou demorada, de costas. Um dia tu entende, pivete! Não, ele não queria saber. Queria puxar papo. E aprendeu que, todo dia, antes de ela dormir, podia tapar os ouvidos e olhar suas reclamações cantadas como ciranda, andoleta ou lagarta pintada. Só quando já roncava, que podia pensar no que teria sido negado: o amor do pai, o emprego, o fiado da venda, a vasilha do bolo quebrada... Enumerava como quem conta carneirinhos. E nunca mais o checo checo significou ameaça. Os ouvidos desligados, em atenção ao que tocava dentro. E a vida sempre deu de muito.

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Diana de Oliveira Melo nasceu em Fortaleza, Ceará, em 23 de junho de 1982. Graduada em Letras, pela Universidade Federal do Ceará, e pós-graduada em Comunicação e Mídia Contemporânea. Tem conto publicado na revista Ficções (Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 2004), crônicas no jornal O Povo. É inédita em livros.