Por enquanto ainda o escuto, mas já estou indo para longe, vou para onde está Carmina, onde deixei Marco Luchesi no almoço, vou através destas habituais colheradas de sopa, vou para uma vida em que ele, meu marido, não sabe e que não aconteceu.

Passaram-se alguns meses e a aquela impressão de que o amor era uma doença não havia passado. Era labirinto com cheiro de éter e paredes de azulejo branco. O amor era perder todas as oportunidades, inclusive a do novo amor: Ah, Esse aqui? É meu marido... (Tarde demais: agora aquele outro vivia com uma ruiva lindíssima, filhos e fotos em países exóticos durante as férias). Pequei muitas vezes com pensamentos e palavras, atos e omissão, por minha culpa, minha tão grande culpa vou te dar meu cartão. E ele ligou. Assim conheci Marco Luchesi. Um novo restaurante. Um novo vinho. Novas piadas. É burro o amor que trai à noite. Amor que dura para sempre, uns 56 anos, trai ao meio-dia. Marco Luchesi, profissional liberal, mas eu sabia, era dono daquela lojinha de computadores que estava na malha fina. No entanto, hoje: “Marco Luchesi, o empresário”. Era meu dia de Madame Bovary. Calcinha apertada. Risos. Ironicamente o encontro era vizinho à Receita Federal. Músicas em comum. Livros em comum, menos os de auto-ajuda (escrúpulos de professora). Era um homem simples. Eu também queria ser simples.

— Que você faz?

— Sou professora.

— Então, vou me comportar bem.

— Isso seria imperdoável.

— Você ensina o quê?

— Literatura.

— Mesmo?

— Mesmo.

— Amanhã vou lançar um livro — ele estava radiante com a descoberta. — Espere um instante, vou pegá-lo no carro e um convite para o coquetel.

— Claro, ri sem riso, claro.

O tal livro era de dar inveja às publicações da Universidade, trabalho gráfico de primeira, cheirando a papel de boa qualidade, capa vermelha e título feminino: Carmina. Uma heroína com potencial. Viver em 2003 é uma felicidade, qualquer um edita um livro, até Marco Luchesi. Que potencial ele poderia dar a alguém? Meu marido era um bom poeta, escrevia sob álcool, nunca gostei. Existem métodos para se escrever. Rituais. Qual seria o ritual de Marco? Clarice gostava das madrugadas e do rádio. Marco não era Clarice. Tenho que agradar meu futuro amante que escreve. Caí novamente nessa malha fina: escritores. O romance não era tão medíocre, apesar de linear e trágico. Uma “heroína com potencial”.

Saí do restaurante com a sensação de ter sido observada durante meu almoço. Sei que os traidores nunca tiveram um happy end. Mas fui enviada: queria salvar-me do tédio. Ter meu dia de Madame Bovary.

Logo à noite, no lançamento, fiz elogios ao escritor, fiz também observações. Ele levava a ficção muito a serio, sua “heroína tinha potencial” (que terminologia!): filha única, mimada, pequeno burguesa, por que aquele final de boletim de ocorrência: “nada mais disse”? Marco, arrogantemente, me sorriu um sorriso humilde. E de repente eu, eu não queria mais um amante. Era medo. Eram milhares de livros de capa vermelha dizendo que eu era uma idiota. Eram Carmina. Era minha vida esperando em casa.

Desci do táxi faltando muitos quarteirões para meu destino. Que destino?

— Pare aqui! Pare aqui!

— Aqui não é nada, senhora.

— Aqui é tudo.

Choveria. Caíam pingos. Andei na chuva: não tinha nada a perder. Não havia mais coquetel, nem Marco Luchesi. Por que li aquele livro tão imprestável? Eu passava de preto entre os carros, sem nada a perder, andando na chuva. Minha mãe e minha avó acreditavam que meus sonhos pudessem ver o futuro. Mas eu mesma nunca acreditei neles. Sonhei querendo um amante e como revelação, nunca quis um amante. Passaram-se alguns minutos e a impressão de que o amor era uma doença havia desaparecido. Subestimei a capacidade de um comerciante que criava Carmina. Ninguém se chama Carmina impunemente. Senti inveja. Tudo é vaidade, dizia o Eclesiastes, até mesmo o tempo de amar. Se eu posso sonhar, que Eu exista. Que Madame Bovary exista. Que todas as personagens existam. Que todas sejam livres.

Um raio.

O diabo me ouve.

Risos.

O diabo não existe.

Uma grande obra ou um destino humano, perguntava mefistofelicamente o apresentador de TV. Alguns escritores não merecem as personagens que tem. O que aconteceria a Desdêmona se Otelo a perdoasse? Carmina era eu: um fracasso. Uma grande obra ou um destino humano? Minha mãe dizia: a vida, minha filha, é uma grande bobagem. Sim, mamãe, a vida é uma grande bobagem.

No dia seguinte fui novamente almoçar com Marco, desta vez para pedir desculpas e sumir. No entanto, Marco parecia mais velho, como se lhe tivessem passado os anos de ontem para hoje, roto, jogado na sarjeta. Falava com a garrulice de quem buscava, forçosamente, as lembranças. Estava totalmente embriagado. Disse-me que nunca esquecera meu olhar daquela noite, minhas observações sobre o cruel destino de Carmina. Sabotagem. Repetiu três vezes. Conheci escritores cujas personagens, à medida que o livro avançava, ganhavam vida, seguiam sozinhas. Mas naquele caso a história era finita: a minha e de Marco. Eu não queria mais. Marco estava bêbado às 13:30. Delirava. Disse-me que depois do coquetel encontrara Carmina no carro. O real tocava o maravilhoso. Dialogaram:

— Que você está fazendo aqui? Perguntara à mulher que estava ao volante.

— Vim te provar que ainda há vida depois de um “acho que as nossas distâncias deixam-me não querendo ser mais do que já somos”.

— Quê? — Marco sentia-se confuso, não pela situação estranhíssima, mas pelo decote: Que decote, que decote! Que pernas! Que peitos!

— Marquito, estou livre e vim atrás de meu happy end.

— Saia do meu carro!

— Eu, não. Aliás, quem dirige sou eu.

— E para onde vamos, madame? Ele também havia tomado ar de cinismo.

— Não sei.

— Não sabe, é?

— Não. Quem escreve é outro e bem melhor que você, Marquito.

— Outro quem?

— O narrador é onisciente, bobinho. Sabe, é meio kafkiano te dizer isso, querido, mas você está preso.

— ?

— Essa história não tem fim.

Depois de ouvir tanta alucinação, voltei para casa, alucinações cansam, dormi no sofá. Mas vez por outra sonhos me vêem a morte. Eu não vejo os sonhos. Quase perdi a hora de voltar para o trabalho. A vida, dizia minha mãe, é uma grande bobagem.

Anoiteceu. Observo meu marido. Por enquanto ainda o escuto, mas já estou indo para longe, vou para onde está Carmina, onde ficou Marco Luchesi, vou através de nossas habituais colheradas de sopa, vou para uma vida que ele, meu marido, não sabe e que não aconteceu. A felicidade depende de esforço. Vou para longe e caio:

— Sabe aquele gaúcho da loja de informática?

— O que houve com ele? Tremi.

— Morreu.

Decidiram que meu “novo amor” morreria às 14:30.

— Ele foi almoçar com uma mulher, depois o assassinaram. A polícia está atrás. Parece que ela chegou ao restaurante vendo sem querer ser vista. É o poder das câmeras. Os olhos que nos olham sem sabermos. George Orwell profetizou.

Depois do almoço com Marco voltei para casa. E agora, após meus vespertinos sonhos intranqüilos, depois de uma sala de aula, tomando minha sopa, descubro que Marco fora assassinado. A mulher das câmeras era eu certamente, mas as mãos do gatilho não eram minhas. Não me preocupo. Não avançamos. Éramos bons amigos. Essa tarde, acho que sonhei com Carmina. Sonhei que ela me sonhava e como diria o poeta, não havia intimidade maior que a do sonho. Do modo como Marco estava alcoolizado só poderia ter sido ela quem o matou. Que delírio! Talvez aquele raio de ontem à noite tenha libertado Carmina. Enigma roseano: o diabo existe ou não existe? Ri: a vida é uma bobagem. Como era bom ser infantil de vez em quando!

— Mas a coitada da mulher está fodida e mal paga. Disse meu marido.

— Eu a conhecia — autobiografei — se chamava Carmina. Ela passou a vida inteira tentado fugir dos finais trágicos, mas nunca soube como se escrever.

— Se eu não fosse poeta, diria que você está estranha hoje.

Mas porque mesmo você disse que ela está perdida?

— Esqueceu o celular sobre a mesa.

Meu celular!

— É meio kafkiano te dizer isso, querida, mas você está presa: essa história não tem fim.

— Quem é você? Onde está meu marido?

— Adivinha, você é tão inteligente...

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Carmélia Maria Aragão nasceu em Sobral, Ceará, em 18 de agosto de 1983. Licenciada em Letras pela Universidade Federal do Ceará. Premiação em vários concursos de Literatura na categoria conto: Prêmio Ideal de Literatura, Concurso de Poesia e Conto do Colégio 7 de Setembro e Concurso Domingos Olímpio de Literatura. Tem crônicas publicadas pelo jornal O POVO, contos e artigos em francês publicados pelo La Voix du GEF. É inédita em livros.